VACINA DE OXFORD USA VÍRUS ENGENHEIRADO PARA PROTEGER CONTRA COVID-19

Mônica Teixeira - 01.07.2020

Neste final de junho, são 13 as candidatas a vacinas contra o coronavírus que estão sendo experimentadas em humanos, a maioria ainda em poucas pessoas – quando se pretende verificar se são ou não tóxicas. Neste segundo semestre de 2020, algumas das candidatas chegam à etapa decisiva dos testes, quando devem demonstrar sua eficácia – ou seja, sua capacidade de gerar proteção contra o SARS-CoV-2 – em milhares de pessoas. Duas dessas candidatas fazem parte da fase III dos ensaios clínicos no Estado de São Paulo. Uma delas, a vacina da Sinovac, será testada sob o patrocínio do Instituto Butantan, que espera para os próximos dias a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para dar início aos testes; a outra, conhecida como a vacina de Oxford, já começou sua fase III, aqui e no Reino Unido. 

A “vacina de Oxford” foi desenvolvida pelo Instituto Jenner, da Universidade de Oxford, no Reino Unido e licenciada para a farmacêutica AstraZeneca. Antes da parceria com a AstraZeneca, a vacina experimental estava sendo chamada de ChAdOx-1 (de chimpanzé, adenovírus, e Oxford); mas agora o nome mudou para AZD 1222. Há otimismo em torno da candidata, que foi selecionada para receber investimentos do governo norte-americano dentro do programa “Warp Speed”. Esse programa, vinculado ao Ministério da Saúde dos Estados Unidos, selecionou cinco vacinas para apoiar o desenvolvimento: duas com a tecnologia de RNA mensageiro, e três com tecnologias de vetor viral, sendo a da AstraZeneca-Oxford uma delas. 

Receita da vacina de Oxford

Vacinas são produtos farmacêuticos destinados a fazer com que nosso sistema imune crie uma proteção prévia contra determinado microrganismo. Para realizar essa tarefa crucial, a candidata britânica parte de um vírus respiratório, um adenovírus, que infecta chimpanzés. Esse vírus passa por um conjunto de procedimentos de engenharia genética para que a) não possa se replicar em células humanas; b) leve até elas, mesmo assim, o código para produção de um antígeno. 

No dicionário das vacinas, “antígeno” é qualquer molécula que o sistema imune reconheça como merecedora de alguma medida de proteção. Em geral, antígenos são moléculas da classe das proteínas, substâncias produzidas por seres vivos a partir da receita contida em uma sequência de DNA; podem estar inteiras ou em pedaços. 

Mas… por que usar um vírus como ponto de partida para a vacina? Para aproveitar uma especialidade deles: entrar em células como as nossas e fazer com que elas produzam não nossas próprias proteínas, mas outras, aquelas que o vírus usa para se replicar. Esse processo recebe o nome de infecção. E como o organismo reage à infecção? Montando uma resposta imunológica – exatamente o que interessa quando se busca uma vacina.

Há outras candidatas a vacina que usam essa mesma ideia, a de fazer um vírus para nos proteger contra “o” vírus do momento, o SARS-CoV-2. No caso da candidata de Oxford, o ponto de partida é esse adenovírus, um “vetor viral” (como se diz no jargão) bastante usado em biotecnologia, por ser benigno e capaz de entrar nas células. 

O vetor viral 

O vetor viral usado na candidata de Oxford não nasceu em 2020. Em 2012, pesquisadores do Instituto Jenner apresentaram o novo vetor de adenovírus de chimpanzé e o método para obtê-lo em um artigo científico. Na época, o que  buscavam era uma vacina contra o MERS – o coronavírus que apareceu no Oriente Médio. O objetivo descrito no paper era o de modificar o adenovírus de forma a torná-lo bastante eficiente na realização da tarefa de levar um antígeno do vírus do MERS para dentro de células humanas. Esse trabalho, que precedeu a pandemia de covid-19, permitiu à candidata de Oxford chegar rapidamente à fase de experimentação com milhares de seres humanos: ela foi criada a partir do mesmo vetor, modificado para entregar às células não mais o DNA do vírus do MERS, mas sim o DNA de uma proteína do SARS- CoV-2. 

Engenharia do vetor viral, em três passos

Passo 1. A fabricação do vetor viral começa com a obtenção do material genético do adenovírus de chimpanzé. Os pesquisadores infectam células de origem humana, cultivadas em laboratório, para que os adenovírus as infectem e se repliquem. Depois de etapas de purificação, obtêm o DNA do vírus “selvagem”, base para “melhorar” o vírus com a utilização de várias ferramentas de engenharia genética. 

Passo 2. A melhoria é feita no DNA do adenovírus original. Constrói-se um cromossomo artificial de bactéria, no qual é inserido o DNA do adenovírus. Esse cromossomo artificial é, basicamente, uma molécula de DNA à qual se adicionam certas terminações. É nele que ocorre a manipulação: deleta-se a região que tem informações essenciais à replicação, de forma a transformá-lo em um vetor do tipo não replicante, o que aumenta a segurança para os que serão vacinados. Depois, usando uma técnica do século XXI chamada, em inglês, de “recombineering”, os biotecnólogos fazem várias outras modificações. A principal delas é a troca de outra sequência do adenovírus pela sequência que contém o código para a produção do antígeno. No caso, o antígeno a ser produzido mais adiante (ainda estamos só mexendo com moléculas de DNA) é uma parte da proteína que o SARS-CoV-2 usa para entrar nas nossas células. A já famosa proteína S, de spike, que significa “ponta” em inglês. É a sequência de parte da proteína S do coronavírus que é inserida no cromossomo.

Passo 3. Feito o cromossomo, é necessário agora produzir o vírus modificado a partir do novo DNA. Na fábrica da candidata de Oxford, isso é feito por células humanas, em que se insere o cromossomo modificado, por meio de uma técnica chamada transfecção. O cromossomo engenheirado entra nas células e elas passam a produzir o adenovírus modificado, o “vetor viral”. Separa-se uma coisa da outra – quer dizer, o que é célula, o que é vírus engenheirado – , e a matéria-prima da candidata de Oxford está pronta para ser transformada em um produto farmacêutico e envasada para distribuição. 

Os ensaios clínicos

De acordo com o site que registra ensaios clínicos na União Europeia, o recrutamento de voluntários no Reino Unido para os testes com a candidata de Oxford já começou. O Instituto Jenner pretende aplicar a vacina em investigação em 60 crianças entre dois e 11 anos, 10.100 adultos entre 18 e 64 anos, e 400 pessoas maiores de 65 anos. Em maio, quando o acordo com a Unifesp para a testagem da vacina no Brasil foi anunciado, o Jenner informou que 4 mil dos mais de 10 mil voluntários já haviam sido alcançados pelo ensaio clínico. 

No Brasil, ainda segundo informações postadas pelo Instituto Jenner, o ensaio clínico da vacina envolverá 5 mil voluntários, em São Paulo, Rio de Janeiro, e estados do Nordeste. O recrutamento começou oficialmente no dia 20 de junho. Em São Paulo, a vacinação experimental está sendo conduzida pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Uma rede de assistência médica, a rede D’Or, está conduzindo os ensaios fora de São Paulo. Há também uma parceria com a AstraZeneca. 

 

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