O que dizem pesquisadores e cientistas de todo o mundo em redes sociais acadêmicas e profissionais

 

Esta página busca acompanhar uma parte pequena do que está sendo publicado em sites das comunidades médicas e biológicas. Esses sites são muito frequentados e os trabalhos postados raramente sofrem a costumeira revisão por pares, embora sejam submetidos ao escrutínio dos especialistas.

 

Expected impact of COVID-19 outbreak in a major metropolitan area in Brazil

Impacto esperado da epidemia de COVID-19 em uma grande área metropolitana brasileira

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Esse artigo, escrito por um grupo de epidemiologistas brasileiros, deu base para projeções sobre a eficácia das medidas de distanciamento social na cidade de São Paulo que a imprensa tem divulgado (por exemplo, no Jornal da Globo - https://globoplay.globo.com/v/8444438). Disponível desde 14 de março em um dos repositórios mais movimentos desses tempos de coronavirus, o medRxiv, o artigo é assinado, entre outros, pelo ex-diretor do Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, Julio Croda, que deixou seu cargo em razão da disputa interna ao governo federal em torno de manter ou não a política de restrição de mobilidade. O trabalho não foi submetido à habitual revisão por pares, como é a característica dos artigos postados nesses repositórios. 

Para estimar o impacto da epidemia na Grande São Paulo, o grupo utilizou um modelo estatístico clássico nas projeções para a evolução das epidemias, denominado SEIHR, acrônimo, em inglês, para Suscetíveis, Expostos, Contagiosos (infectious), Hospitalizados, Recuperados. Além dessas variáveis, os pesquisadores introduziram uma estratificação por faixas etárias. O modelo, de acordo com o artigo, “permite a determinação da evolução do número de casos, número de pacientes admitidos em hospitais e as mortes causadas por covid-19”, com base em parâmetros – como, por exemplo, a probabilidade de transmissão por contato –  encontrados em outros estudos epidemiológicos e aplicados a São Paulo. Como resultado, o artigo projeta que, ao fim dos primeiros 60 dias da epidemia, haverá na área metropolitana 38 583 casos de covid-19, 8 427 deles em pessoas maiores de 60 anos, 2181 hospitalizações e 397 mortes. Como limitações do modelo, os autores apontam que assumiram a) uma probabilidade de transmissão constante nas diferentes faixas etárias, b) que toda pessoa severamente doente será hospitalizada e que c) a “capacidade de detecção na rede primária de saúde não muda durante toda a epidemia”. 

O trabalho de 14 de março não incluiu na projeção nenhuma medida de isolamento social. No final de março, os autores reavaliaram o modelo com base nos dados reais de casos de síndrome respiratória aguda grave de 19 de fevereiro até 20 de março. A SRAG, como se diz no jargão, é doença de notificação obrigatória, decorrente principalmente da gripe. A utilização desses dados evita a incerteza para as análises trazida pelo acúmulo de testes ainda não realizados na cidade. Como a gripe também é uma doença respiratória, como a covid 19, as medidas de restrição afetam o contágio por uma ou por outra. 

Os autores observam que o objetivo do estudo é municiar a tomada de decisões nas políticas públicas a serem aplicadas para a diminuição das consequências da pandemia.

 

Hydroxychloroquine, a less toxic derivative of chloroquine, is effective in inhibiting SARS-CoV-2 infection in vitro

A hidroxicloroquina, um derivado menos tóxico da cloroquina, é eficaz na inibição in vitro da infecção por SARS-CoV-2

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Publicado na Nature em 18 de março, o artigo de pesquisadores chineses compara o efeito antiviral da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento do novo coronavírus, especialmente em relação à citoxicidade. Para isso, os cientistas analisaram células de rim de macaco verde africano. Em seguida, eles criaram curvas de dose-resposta a fim de determinar e quantificar as diferentes multiplicidades de infecção. A conclusão é que a hidroxicloroquina pode contribuir para atenuar a infecção por SARS-CoV-2 in vitro de forma menos tóxica que a cloroquina. A possibilidade aguarda, porém, confirmação por ensaios clínicos.

 

Of chloroquine and COVID-19

Sobre cloroquina e COVID-19

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Disponível desde 5 de março na ScienceDirect, a publicação compila estudos sobre as tentativas falhas de utilização da cloroquina como tratamento de diversas doenças, como ebola, chikungunya e HIV. Os pesquisadores dizem que, apesar dos dados iniciais in vitro sugerirem que a cloroquina inibe a replicação do novo coronavírus, os resultados clínicos anunciados pela China não possuem dados. Nesse sentido, o artigo pede que esses dados sejam divulgados e revisados pela comunidade científica.

 

Breakthrough: Chloroquine phosphate has shown apparent efficacy in treatment of COVID-19 associated pneumonia in clinical studies

Inovação: O fosfato de cloroquina demonstrou, em estudos clínicos, aparente eficácia no tratamento da pneumonia associada ao COVID-19

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Pesquisadores chineses publicaram na BioScience Trends um estudo demonstrando a aparente eficácia de fosfato de cloroquina no tratamento da pneumonia associada ao COVID-19. O medicamento, usado no tratamento da malária, artrite e lúpus, foi usado em testes de casos clínicos na China. Os primeiros estudos in vitro mostraram que a cloroquina funcionava como um bloqueador do COVID-19. A substância foi utilizada, então, em mais de dez hospitais para tratar a pneumonia consequente do coronavírus 2019. Os resultados de mais de 100 pacientes são listados no artigo. 

 

Assessing the potential impacts of COVID-19 in Brasil: Mobility, Morbidity and Impact to the Health System

Avaliação dos impactos potenciais do COVID-19 no Brasil: Mobilidade, Morbidade e Impacto sobre o Sistema de Saúde

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Este trabalho foi realizado por pesquisadores em saúde pública e ciências da computação, majoritamente da Fiocruz, do Rio de Janeiro, e da Northeastern University, de Boston. O grupo tomou São Paulo e Rio de Janeiro como pontos de irradiação da epidemia e traçou  cenários a partir daí. Abaixo, traduzimos o tópico em que os autores discutem o que encontraram.

A análise probabilística da disseminação inicial do COVID-19 apresentada aqui desconsiderou intencionalmente os efeitos de quaisquer esforços de distanciamento social e restrições de mobilidade. Nesse sentido, representa o pior cenário, que não está muito longe da realidade, uma vez que a implementação de medidas de controle e o estabelecimento de mudanças comportamentais na população em geral levarão provavelmente mais de duas semanas. Além disso, a adesão é incerta, especialmente para trabalhadores que não têm licença remunerada ou cujo trabalho limita as possibilidades de trabalho de casa. Por outro lado, tentamos ser conservadores com os parâmetros do modelo, usando R0=2,5 e o número inicial de casos notificados no Rio e em São Paulo, já  maior do que os cem casos postulados no trabalho. Acreditamos que, depois de se espalharem as duas ondas descritas aqui, os efeitos dos esforços de contenção pelas autoridades de saúde começarão a influenciar a dinâmica de transmissão, mas até lá o país estará gerenciando um número considerável de casos (potencialmente graves), levando a um grande impacto no serviço público e no serviço privado de saúde. Demonstramos que a distribuição per capita heterogênea dos leitos hospitalares pode causar uma distribuição desigual do peso da crise, que pode ser minimizada pelas autoridades por meio de investimentos diferenciais preventivos no sistema público de saúde (SUS). Esperamos que a análise aqui apresentada possa ajudar os governos a tomar decisões em relação ao curso ideal de ação e alocação de recursos. Embora esses resultados sejam específicos para o Brasil, eles também podem orientar análises semelhantes em outros países.

 

Impact of non-pharmaceutical interventions (NPIs) to reduce COVID-19 mortality and healthcare demand

Impacto de intervenções não farmacêuticas para reduzir a mortalidade por COVID-19 e a demanda de assistência à saúde

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No dia 16 de março, um grupo liderado pelo epidemiologista britânico Neil Ferguson publicou uma análise do impacto trazido pelas diferentes medidas de distanciamento social sobre a mortalidade causada pelo SARS-CoV-2 e sobre o sistema de saúde.  O epidemiologista contou em um comunicado de imprensa do Imperial College, onde ele trabalha, que as medidas reduzem a mortalidade pela metade e a procura pelo sistema de saúde em dois terços. “Isso não será suficiente para evitar a sobrecarga do sistema”, ele afirmou, “e é provável que medidas mais restritivas, especialmente para aumentar a distancia social, deverão ser implementadas e mantidas por muitos meses”.

 

Covid-19 — Navigating the Uncharted

Covid-19 - Navegando no desconhecido

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O infectologista norte americano Antonio Fauci, diretor do Instituto Nacional para Doenças Alérgicas e Infecciosas do governo norte americano (NIAID/NIH), é um dos autores de editorial publicado dia 28 de fevereiro no New England Journal of Medicine. O título chama a atenção para a circunstância atual, em que os especialistas em saúde pública enfrentam a epidemia como alguém que navega sem mapa. Ao mesmo tempo, os autores selecionaram algumas informações úteis, já publicadas:

  • Sobre quem tem sido infectado pelo vírus: A média de idade de 425 casos chineses relatados em artigo no New England foi de 49 anos, com maior morbidade e mortalidade entre os mais velhos com doenças crônicas. Mais da metade dos 425 pacientes (56%) eram homens; e não houve nenhum caso em crianças até 15 anos.

  • O editorial apresenta duas hipóteses para a ausência de crianças: ou elas são infectadas em menor grau que os adultos, ou seus sintomas são tão leves que não permitem a detecção da infecção.

  • A taxa de mortalidade, para esses 425 casos, foi de 2%. Outro artigo, contam os autores, relata dados que mostram uma taxa de mortalidade menor, de 1,4%. Nesse ponto, os autores ponderam que, quando se computar os assintomáticos (que parecem ser muitos), a conta vai apontar para uma letalidade ainda menor, talvez mais parecida com a da influenza (0,1%), e muitas vezes menor do que as infecções causadas pelos coronavírus do SARS (2002-2003) e do MERS (2012), respectivamente de 9-10% e 36%.

  • Sobre vacinas, o editorial informa haver uma candidata que entrará em fase I de ensaios clínicos provavelmente em abril. Cita quatro medicamentos antivirais em experimentação: lopinavir–ritonavir, interferon-1β, remdesivir e cloroquina. Sugere também o uso de soro hiperimune coletado de pessoas que sofreram a infecção como uma outra possivel terapia.

 

Cryo-EM structure of the 2019-nCoV spike in the prefusion conformation


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Neste artigo, publicado em 19 de fevereiro, os autores produziram imagens da glicoproteína na superfície do novo coronavírus – que causa a atual epidemia na China. A proteína é um alvo potencial para o desenvolvimento de vacinas, medicamentos e testes diagnósticos. A equipe de cientistas também mostra que os anticorpos usados contra o vírus causador do SARS não apresentam efeito em contato com o SARS-CoV-2 (nome oficial do novo vírus).

 

A rapid advice guideline for the diagnosis and treatment of 2019 novel coronavirus (2019-nCoV) infected pneumonia (standard version)

Uma diretriz de aconselhamento rápido para o diagnóstico e tratamento da pneumonia causada pelo coronavírus 2019 (versão padrão)


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Publicado na revista Military Medical Research em 6 de fevereiro, este artigo, produzido por médicos e cientistas chineses, reúne diretrizes para o tratamento e diagnóstico de pessoas acometidas pelo COVID-19.

 

Remdesivir and chloroquine effectively inhibit the recently emerged novel coronavirus (2019-nCoV) in vitro

Remdesivir e cloroquina inibem efetivamente o novo coronavírus in vitro


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Publicado em 4 de fevereiro de 2020 na Cell Research, do grupo Nature, este artigo relata experimento em que células infectadas em laboratório foram “tratadas” com diferentes antivirais já comercialmente disponíveis. Os autores identificam que dois desses antivirais – remdesivir (usado para o tratamento da infecção pelo vírus Ebola) e cloroquina (um tradicional medicamento antimalária – mostraram capacidade de inibir a multiplicação do SARS-CoV-2.

 

A new coronavirus associated with human respiratory disease in China

Um novo coronavírus associado a doenças respiratórias humanas na China


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Este artigo, publicado no site da revista Nature em 3 de fevereiro, sem revisão, apresentou resultados do primeiro sequenciamento completo do vírus causador da atual epidemia chinesa.

 

2019 Novel coronavirus: where we are and what we know

Coronavírus de 2019: onde estamos e o que sabemos


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Este artigo de revisão, publicado na revista Infection, reúne o que a ciência sabe sobre a virologia e a epidemiologia do coronavírus de 2019 e sobre o manejo clínico de quem foi infectado por ele.

 

Deposition of respiratory virus pathogens on frequently touched surfaces at airports

Deposição de patógenos de vírus respiratório em superfícies frequentemente tocadas nos aeroportos


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Publicado ainda em 2018 na revista BMJ Infectious Diseases, o artigo, produzido por uma equipe de cientistas suecos, testou superfícies e locais em um grande aeroporto para verificar a presença de vírus causadores de doenças respiratórias, com o objetivo de oferecer diretrizes que poderiam diminuir sua propagação.