A Biologia, a evolução e o comportamento antissocial

Por Carlos Jared, 28.07.2020*

Quando praticamos a Biologia, tendemos a interpretar todos os seus fenômenos com base na evolução, seguindo a tradicional e sagaz recomendação do biólogo Theodosius Dobzhansky. Sempre procuramos as respostas para as características dos seres vivos naquilo que chamamos de adaptações, tanto as morfológicas quanto as fisiológicas. Parece que as adaptações comportamentais são mais difíceis ou requerem mais investimentos para serem identificadas ou mesmo interpretadas. Este fato é ainda mais válido quando nos referimos às adaptações humanas. Eu, particularmente, acredito que o nosso comportamento e muitas das nossas crenças (incluindo a religiosa, no sentido mais amplo) foram moldados através da história evolutiva da nossa espécie. Foram modelados durante o nosso longínquo e menosprezado passado real e não o recente, descrito através da história oficial. Quando se analisa o ser humano, existe uma clara tendência de esquecer os milhares de anos em que vagamos pelas florestas, savanas, desertos, tundras etc e considerar a nossa existência somente a partir do estabelecimento nas agregações urbanas, desde pequenas comunidades às grandes cidades, quando abandonamos a nossa condição de caçadores/coletores.

Uma das experiências mais marcantes da minha existência foi vivenciada através da visão de um horizonte, numa viagem à Serra da Mantiqueira, em meados da década de 1970. Eu estava bem no alto de uma montanha, em uma confortável localização, admirando uma vista deslumbrante. Então, inesperadamente, fui tomado por uma sensação indescritível, que hoje posso qualificar de ‘religiosa’. Admirar aquela vastidão, que se estendia pela floresta, quase que infinitamente, realmente fez eu me sentir como um minúsculo grãozinho de areia numa enorme extensão de praia. Contrariamente, entretanto, a sensação de pequenez, como por milagre, transformou-se na de grandiosidade: era a consciência de fazer parte de ‘tudo aquilo’, de ser um elo, ainda que efêmero, da vida do planeta e da espécie Homo sapiens. Era a sensação de que eu sempre tinha existido, ainda que na forma de átomos dispersos, e, naquele momento, temporariamente organizados na forma do ‘Carlinhos Jared’. Ajuntava a isso a imediata consciência de que, como um membro pertencente desta espécie, contava com a prerrogativa de ter uma individualidade: era portador da consciência do ser, podendo fazer uma clara distinção entre aquilo que eu chamava de ‘eu’, e aquilo que chamava de meus companheiros de viagem, de troncos petrificados de árvores ao meu lado, ou de qualquer outra ‘coisa’. Dessa forma, mesmo com a minha enorme insignificância, eu contribuía (e, a partir de então, tive a consciência dessa contribuição!) para o ‘divino’ papel na manutenção da vida no nosso planeta.

Bem depois desse acontecimento, fui saber que, por outras vias, o magnífico e bondoso Baruch Espinosa (1632-1677) detalhava uma boa parte da sua filosofia com base nessa mesma sensação. Afirmava que estávamos imersos na divindade do mundo, na sua profunda substância divina, ou melhor, no que chamava de ‘Deus’. Espinosa ficou conhecido, superficial e surpreendentemente, como um ‘ateu’ -- na minha opinião, o mais religioso deles. Essa mesma sensação de religiosidade original e primitiva (ou basal, na denominação atual dos biólogos evolutivos) deve ter sido vivenciada por milhares de gerações de seres humanos, fazendo com que muitos deles, seguindo as suas bases culturais, formassem religiões, incluindo as atuais. Tenho certeza de que a descoberta da individualidade, gerando ‘o eu e os outros’, criou as bases do amor ao próximo. Seguindo esses mesmos preceitos evolutivos, seria muito importante que investíssemos na felicidade alheia, o que acabaria sendo revertido na nossa própria, já que percorremos o caminho da vida juntos, que, bem possivelmente, será única, pelo menos materialmente...

Assim, ao longo da nossa evolução, para a sobrevivência das comunidades humanas, é bem provável que houve a seleção de, pelo menos, alguns comportamentos altruístas. O desenvolvimento destes comportamentos representa uma real vantagem seletiva. Uma comunidade em que cada um pensasse somente em si próprio não teria a mínima perspectiva de prosperar, comprometendo, fatalmente, a sua sobrevivência. Mesmo em comunidades de outros primatas, vê-se claramente que os indivíduos passam uma grande parte do tempo dedicando-se inteiramente ao outro. Um exemplo muito marcante, entre os primatas em geral, é o comportamento da ‘catação’, no qual examinam mutuamente a superfície cutânea, por entre os pelos, removendo parasitas, dificilmente acessíveis, ao próprio indivíduo, aumentando a sua higiene e a da comunidade, e estreitando os laços sociais.

Parece, no entanto, que estes preceitos evolutivos, analisados pela ótica racional, não são totalmente adequados à interpretação da realidade humana. Contrariamente, como nota o atual filósofo francês André Comte-Sponville, parece que a evolução também selecionou comportamentos que julgamos egoístas ou imorais, como a agressividade, a insensibilidade, a inveja, a astúcia etc. Certa dose destes comportamentos, lamentavelmente, caracteriza-se como uma vantagem seletiva, já que estão muito difundidos em boa parte dos integrantes da humanidade.

Assim, como atualmente a comunidade humana está bem formada e globalizada, a sociedade, principalmente a ocidental, por conta especialmente do regime democrático, permite a presença de indivíduos antissociais, com evidentes aberrações comportamentais. Nestes tempos pandêmicos, a imprensa vem divulgando largamente casos de pessoas que ilustram muito bem esses indivíduos. São também Homo sapiens, considerados seres sociais que, além de atentarem contra o bem-estar da comunidade onde vivem, aumentam o conflito social, investindo no desprezo aos menos favorecidos, insistindo na divisão da sociedade entre os mais e os menos privilegiados.

Há anos circulou uma pesquisa de opinião pública que se resumia na informação de que a pior característica que se poderia apresentar para não se ganhar uma eleição aqui, em termos de Brasil, era a de ser identificado como ‘ateu’, tomando o termo na simplicidade da conceituação popular. O ‘ateísmo’ ganhava, de longe, dos preconceitos contra a orientação sexual do candidato, ou mesmo da sua permissividade em relação à corrupção. Indivíduos egocêntricos e antissociais, que não se importam com a possibilidade de contaminarem o próximo com a covid-19, podem também ser altamente ‘religiosos’, segundo a simplicidade do conceito popular. Immanuel Kant (1724-1804), mesmo sendo um filósofo religioso, recomendava que o ‘bem’, em si próprio, deveria ser exercido porque é bom e útil, e não em função de ameaça de castigos ou de mandamentos divinos. Ademais, seguindo os preceitos evolutivos, o ideal seria que o ‘bem’ fosse exercido tanto através de atitudes puras e desapegadas, quanto através dos princípios de uma saudável crença religiosa.

*Carlos Jared é pesquisador sênior do Instituto Butantan, especializado na biologia e história natural de anfíbios e répteis.