A Biologia, o desconhecimento do que é vida e a contribuição de Ernst Mayr

Por Carlos Jared, 04.08.2020*

Os livros de Biologia costumam ensinar essa ciência a partir da significação da própria palavra biologia. É constante a explicação de que é formada pelo sufixo grego bio, que significa vida, seguido de logos, estudo, descrição. Biologia seria, então, o estudo (ou a ciência) da vida. Contraditoriamente, seguindo esses mesmos livros, o iniciante se dá conta (logicamente com a contribuição da existência dos vírus) de que não há concordância entre os cientistas acerca do que é vida. Fica claro que a ciência da vida parte do pressuposto de que o seu propósito é dúbio: mesmo podendo sentir o que é vida e conhecer as suas manifestações, ela ainda permanece indefinida. E essa situação vem se estendendo há quase 300 anos, desde que Lineu usou esse termo, na forma latinizada na sua Bibliotheca Latina, em 1736.

Em relação à data de fundação da Biologia, pela minha parte, sempre acho que, simbolicamente, deveria ser o dia 24 de novembro de 1859. Nesse dia, foi publicado “A origem das espécies”, de Charles Darwin, o livro que realmente consolidou a Biologia, fugindo dos conceitos sobrenaturais e fortalecendo as explicações racionais sobre a vida (mesmo com a indefinição do termo!), seu surgimento e seu desdobramento no mundo. Foi a partir daí que se prescindiu da interpretação literal bíblica e a Biologia se tornou, a partir da Teoria da Evolução e pelo seu tema de estudo, a mais polêmica das ciências.

Plagiando Alexander Pope, um dos maiores poetas britânicos do século XVII, que pontuou de forma satírica: “A Natureza e as leis da Natureza ocultavam-se nas trevas: Deus disse, Faça-se Newton! E tudo se fez luz”. Em relação à Biologia, pode-se dizer que, trocando Newton por Darwin e luz por evolução, essa afirmação mantém a sua validade e a sua graça. Pode-se afirmar, também, que essa correlação divina, apontada por Pope, é uma das justificativas pelas quais ambos os cientistas, Newton e Darwin, estejam acertadamente enterrados bem próximos, na suntuosa Abadia de Westminster.

Ernst Mayr morreu aos 100 anos em 2005, depois de percorrer praticamente todo o século 20, no qual viveu o enfraquecimento e a ascensão da Biologia, que ele mesmo ajudou a incrementar. Ao longo dos seus 80 anos de ofício, o biólogo alemão naturalizado norte-americano, que havia desistido do curso de Medicina e abraçado o de História Natural, presenciou também o desenrolar da época áurea da ciência. Foi um dos grandes naturalistas, tendo iniciado os seus trabalhos científicos pesquisando ornitologia nas florestas úmidas da Nova Guiné, de 1928 a 1930. Essa oportunidade foi ímpar em toda a sua vida, sobrevivendo à malária, à disenteria e à morte por afogamento, quando a sua canoa virou.

Esse viés de aventureiro e grande observador, aliado ao trabalho de campo e à grande erudição biológica que possuía, forneceu-lhe uma enorme experiência, abrindo-lhe o entendimento da Biologia e das bases da evolução, com olhos atualizados (ao menos nos padrões dos anos da sua juventude). Em 1931, migrou para os Estados Unidos e se ligou ao Museu Americano de História Natural. Na década de 1940, juntamente com Theodosius Dobzhansky e outros importantes biólogos, criou a "Síntese Moderna", que aprimorou a Teoria da Evolução, dando-lhe as características que estão vigentes até os dias atuais. Ele também se interessou muito (e é uma das grandes referências) por História e Filosofia da Ciência, áreas que, em geral, não fazem parte dos interesses dos nossos atuais colegas cientistas. Muitos deles, expressando um intenso utilitarismo, chegam a afirmar, nas entrelinhas, que a Filosofia e a História não concedem benefícios à humanidade, não possuindo a estatura e a dignidade das suas próprias áreas experimentais, que investem diretamente na melhoria da condição humana...

A meu ver, afora a vívida e importante contribuição nas áreas biológicas, como cientista, Mayr, através dos seus artigos e livros, fez um trabalho extraordinário ao desvendar e mostrar as características da Biologia, diferenciando-a totalmente da Física, a ciência tomada como modelo pelo povo em geral. É fácil perceber que os físicos amadores, em grande parte apoiados no reducionismo dos conceitos populares, muitos deles ainda baseados no mundo conceitual de Newton (que deixam Einstein de lado!), tendem a avaliar os biólogos em uma escala de valores que depende da medida em que eles se utilizam de “leis”, mensurações, experimentos e outros recursos de pesquisa, bem mais ligados às ciências físicas. Um argumento simples e objetivo contra essa falsa avaliação é o fato de que a teoria que transformou a concepção da vida e revolucionou a forma como concebemos a nós próprios foi largamente baseada em observações efetuadas diretamente na natureza, na longa viagem que Darwin efetuou ao redor da Terra, de 1831 a 1836, a bordo do HMS Beagle, usando basicamente a observação e o entendimento, bem longe da objetividade dos físicos. Dessa forma, deve-se entender que existem critérios próprios para a definição das diversas ciências e quando nos referimos à “Ciência”, estamos empregando um termo vago, que engloba todas elas, dentro da grande variedade dos modos de se entender o mundo. Em sentido contrário à Física, há somente uma lei em Biologia, que diz que “Todas as leis biológicas têm exceções!”.

Esse momento de pandemia talvez seja um dos únicos em que as supostas hierarquias disciplinares e as reservas de mercado das respectivas profissões ficam em segundo plano. Cada profissional pode exercer livremente e aristocraticamente a função para a qual foi treinado, sem se sentir superiorizado ou inferiorizado, frente à imposição de valores culturais e econômicos, favoráveis ou desfavoráveis. É uma das poucas vezes em que a humanidade pode se orgulhar de ter se reunido para batalhar contra um inimigo comum, deixando de lado as várias controvérsias, na maior parte das vezes, gananciosas e mesquinhas. São médicos, enfermeiros, biólogos, biomédicos, físicos, engenheiros, arquitetos, antropólogos, matemáticos, jornalistas, historiadores, filósofos etc. etc. trabalhando obstinadamente para um único fim: o ataque à covid-19.

É exatamente nesse momento extremo de pandemia, em que, mesmo de forma utópica, a História e a Filosofia podem ser úteis também para expor o nosso agudo individualismo, embora sejamos seres sociais. A definição da nossa área de atuação ou da nossa profissão, que deveria nos fornecer motivos para contribuirmos com a humanidade, tem sido subjugada, na maior parte das vezes, ao mais impiedoso objetivo: a aquisição do lucro monetário, servindo primordialmente para nos inserir em um status profissional socialmente desejável. Isso faz com que a nossa principal meta de vida seja a aquisição de dinheiro, juntamente com a contribuição ao crescimento econômico (e não ao crescimento individual!). São essas conjecturas que fazem com que duvidemos que o “sapiens”, da denominação da nossa espécie, seja válido e tenha um verdadeiro significado.

*Carlos Jared é pesquisador sênior do Instituto Butantan, especializado na biologia e história natural de anfíbios e répteis.