A COVID, a morte e as suas implicações

   O pesquisador Carlos Jared em sua casa.

Por Carlos Jared* - 11.05.2020

Analisando o contexto histórico atual, fica muito flagrante o antagonismo de opiniões que a pandemia do novo coronavírus (Covid-19) vem causando. Além de se lutar contra o vírus, é necessário também agir contra o comportamento de uma boa parte da população que (juntamente com os seus líderes) mostra um trivial desprezo pela propagação do vírus e pelo isolamento social. É incrível o menosprezo pela vida rapidamente identificado em frases aleatórias, nas quais se afirma explicitamente que “não há o que fazer, nessa pandemia muita gente vai morrer”. Para causar um impacto ainda mais forte, costuma-se usar o pretexto econômico, argumentando a favor principalmente da estabilidade dos empregos. Afirma-se que a imposição do isolamento social será fatal para a derrubada definitiva da nossa já combalida economia. Desconsiderando o fato de que essa pandemia atinge praticamente todos os países do planeta (muitos deles em situação ainda pior do que o nosso!) alega-se que, mantendo o isolamento, o Brasil se transformará, em pouquíssimo tempo, de país pobre a país miserável. Com essa abordagem obtusa e insensível, conclui-se que “pior do que se contaminar com o vírus é morrer de fome!”.

O atual Diretor-Geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, é o primeiro africano a ocupar esse cargo desde a sua fundação, em 1948. Possui uma formação acadêmica muito abrangente, dispondo de suficiente qualificação, de forma a abordar essa pandemia tanto pelo lado das Ciências Biomédicas quanto pelo das Ciências Humanas. É biólogo, mestre em Imunologia e doutor em Filosofia, tendo se especializado em Saúde Comunitária. No mês passado, reagiu à fala de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, que ameaçava suspender o envio de dinheiro para a OMS. Naquela época, Trump já havia sido alertado sobre o fantasma pandêmico que rondava os EUA (hoje, o epicentro pandêmico mundial). Ele afirmava que essa suspensão se devia ao fato de que a pandemia estava centrada na China e que essa entidade mundial adotava uma clara postura de proteção a esse país. O Dr. Tedros, diante dessa acusação, afirmou que “politizar o vírus é brincar com fogo”. Pediu, então, que houvesse uma quarentena também em relação a esse tema, deslocando os esforços para além das linhas partidárias e de crença, o que ajudaria enormemente na luta contra a catástrofe pandêmica. Analisando historicamente catástrofes como essa, parece que existe uma natural tendência a se aproveitar delas, a fim de se obter lucros políticos, em geral ligados à manutenção do poder.

Pelo nosso lado, vê-se que o Brasil não está imune a essa politização e também necessita urgentemente de uma quarentena. Por aqui, é bem evidente que algumas correntes político-partidárias se valem desse comportamento e jogam os cidadãos desavisados contra a Ciência e contra as autoridades de Saúde Pública. Em comparação com a perversa atitude dos místicos antivacinistas, a dos antiquarentena atinge proporções letais inimagináveis. Enquanto redijo esse texto, de acordo com a OMS, o Brasil já registra 11.207 mortes oficiais, não considerando aquelas ainda não reconhecidas como decorrentes do coronavírus. É inegável que são degradantes as condições de vida da população que vive na linha da pobreza, em torno de 55 milhões de desesperançados (1/4 da população brasileira), segundo o IBGE. O pior é que o número de mortos advindos dessa população vem subindo e o das classes mais abastadas, decaindo sensivelmente. Esses números parecem não impressionar uma boa parte da população brasileira em geral (incluindo várias autoridades) que se mostra insensibilizada: afinal são somente números...

Pela minha parte, analisando a situação como um cidadão comum (no mínimo, esclarecido!), que trabalha com Ciência básica, o que parece bem provável é que as medidas de isolamento, nas particulares condições sociais e políticas atuais brasileiras, não serão totalmente implementadas. A não ser que haja determinações bem mais restritivas, o que acho pouco provável, levando em conta as condições de vida dos brasileiros pobres, é bem possível que, infelizmente, deveremos conviver com essa pandemia por um tempo bem maior do que se esperava. As mortes continuarão aumentando vertiginosamente, seguindo o curso natural das epidemias. Alguns estados privilegiados, no entanto, como São Paulo, deverão ter melhoras mais rápidas e um controle maior sobre a possibilidade de politização associada à Covid-19. Sem dúvida alguma, os que sofrerão mais serão os estados do Norte e Nordeste, com as suas inerentes condições precárias de saúde.

Reforçando as afirmações referentes à politização da pandemia, vem bem ao caso lembrarmos do movimento, ou motim popular, que ficou conhecido como a “Revolta da Vacina”, ocorrido em novembro de 1904. Os famosos e aclamados “higienistas” da época, como Oswaldo Cruz, posicionavam-se frontalmente contra as bases culturais do brasileiro comum, que se apegava às suas práticas higiênicas e medicinais, incrustradas ao longo dos 400 anos anteriores de colonização e escravidão. Era bem evidente para os higienistas que essas tradicionais práticas higiênicas favoreciam a disseminação da varíola, da peste bubônica, da malária etc. Esses higienistas, atuando inclusive a nível político, conseguiram a aprovação de uma lei sobre a obrigatoriedade da vacina contra a varíola em janeiro de 1904, o que poderia melhorar consideravelmente a saúde pública carioca. Então, contrariamente ao que se poderia esperar, o povo do Rio de Janeiro, a então capital da iniciante República brasileira, amotinou-se, instalando uma verdadeira batalha campal. A extensão do ocorrido foi tamanha, chegando a ponto de as autoridades serem obrigadas a declarar estado de sítio. A situação só foi normalizada depois da queda da referida lei. Ao final do ocorrido, foram 30 mortos, 110 feridos e 945 presos, dos quais 461 foram deportados para o então Território do Acre. A reivindicação inicial era somente a possibilidade de optar “livremente” sobre ser ou não vacinado. Os protestos foram se politizando e migraram da área médica para a área política. Assim, um grupo de militares, seguidores do Marechal Floriano Peixoto, o segundo presidente brasileiro (na época já falecido), valendo-se do descontentamento da população e com apoio de setores civis, tentaram um golpe de estado na madrugada do dia 15 de novembro, que foi rapidamente abortado.

Logicamente que as nossas condições atuais são outras e que o Brasil se desenvolveu, transformando-se em um dos países mais influentes no contexto político internacional. A despeito disso, não há como negar que a alma que gerou a “Revolta da Vacina” ainda paira sobre o Brasil e a força dos atuais antivacinistas e detratores da Ciência é bem grande. A própria OMS e várias revistas científicas e agências internacionais denunciam constantemente líderes brasileiros que subestimaram (e continuam subestimando) a enorme letalidade da pandemia. Tenho a impressão de que, a curto prazo, um dos meios de conter essa pandemia seria através da instauração de uma campanha mundial, expondo esses líderes à opinião pública. É realmente o fim dos tempos os mortos serem contados simplesmente por números.  De forma desumana e extraordinariamente insensível, insiste-se em desconsiderar que foram vidas de pessoas dignas, amadas por outras pessoas. Pais, filhos, irmãos, amigos, conhecidos...

*Carlos Jared é pesquisador sênior do Instituto Butantan, especializado na biologia e história natural de anfíbios e répteis.

Leia mais:

COVID-19: reflexões de um fragilizado cientista

Resposta imune especial induzida por vacina viva é estudada para uso na pandemia