As três vacinas da semana

Por Adriana Matiuzo, com redação - 03.06.2020

onze vacinas contra covid-19 já em testes com pessoas. Nesta semana, a revista Lancet publicou os resultados sobre a fase I de uma candidata a vacina recombinante em desenvolvimento conjunto entre a empresa CanSino e o Instituto de Biotecnologia da Academia Militar de Ciencias Medicas na China. Essa vacina pretende “provocar” o sistema imune em resposta a uma proteína do SARS-CoV-2 montada em um adenovírus humano.

Já informações parciais sobre a vacina da Moderna apareceram em um press release em seu site no dia 22 de maio, sem divulgação de quaisquer dados sobre o estudo. Anthony Fauci, diretor de um dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, manifestou publicamente seu desagrado com o modo da divulgação. A vacina da Moderna, desenvolvida em parceria com o NIH, pretende levar células do nosso organismo a produzirem elas próprias proteínas traduzidas de trechos do mRNA do coronavirus (que são a base da vacina deles), o que dispararia a resposta imune.

Finalmente, houve notícias também sobre a candidata a vacina recombinante desenvolvida no Instituto Jenner, da Universidade de Oxford, agora em parceria com a Astra Zeneca, que usa um adenovírus de chimpanzé para carrear uma proteína do vírus e obter dessa forma a resposta imune. A mais recente veio do governo federal.

A vacina de Oxford

A notícia da semana vem do Brasil: o Ministério da Saúde anunciou, a Anvisa aprovou , no dia 2 de junho, que dois mil brasileiros participem de testes clínicos da candidata a vacina. No Brasil, quem vai conduzir a administração do produto em mil voluntários de São Paulo é o Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais, da Unifesp.  Haverá também 1.000 voluntários no Rio de Janeiro. Quem pediu as autorizações ao Ministério e à ANVISA foi a farmacêutica Astra Zeneca, que licenciou a vacina do Instituto Jenner e do governo britânico. A empresa também recebeu R$ 5,7 bilhões (US$ 1 bilhão) do governo dos Estados Unidos para desenvolver e fabricar a vacina no futuro.

Segundo o Instituto Jenner, a fase I/II de ensaios clínicos da vacina começou em abril, já imunizou mais de 1.000 pessoas com o produto e o acompanhamento dos voluntários e análise de dados estão em andamento. Para apressar o processo, como tem sido recomendado nesta pandemia, os estudos do que o instituto chama de fase II/III estão se iniciando na segunda semana de junho.

Nesta fase, haverá recrutamento de 10.260 voluntários, adultos e crianças,  por 18 centros de pesquisa espalhados pelo Reino Unido. Os voluntários já começaram a ser recrutados e estão sendo testados, pois um dos critérios para a participação no estudo é o voluntário não ter tido contato com o SARS-CoV-2. No desenho proposto pelos organizadores do estudo, metade dos participantes receberá a nova vacina e a outra metade receberá uma vacina já licenciada, no lugar do placebo (para saber mais sobre essa estratégia, leia). O estudo quer recrutar principalmente profissionais de saúde. No site dos ensaios da candidata a vacina, não há menção à participação da Unifesp. Um pequeno grupo de adultos de mais de 56 anos, e crianças entre 5 e 12 anos, entraram  na amostra de pessoas a receberem a candidata a vacina nesta fase II/III, já que um dos objetivos é conhecer resultados em todas as faixas etárias.

A razão de esse grupo de pesquisadores estar bastante adiantado no processo de avaliação da vacina em humanos é eles terem usado uma plataforma de vacina na qual já estavam trabalhando -- a mesma utilizada para buscar  vacinas contra Sars e Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio), que tinham tido a sua segurança atestada. Com isso, a etapa de desenvolvimento que, normalmente, levaria em torno de dois anos, foi feita em dois meses. Os pesquisadores apenas adicionaram uma proteína presente no novo coronavírus ao adenovírus de chimpanzé já preparado.

A vacina da CanSino Biologics (ClinicalTrials.gov, NCT04313127.)

A vacina, chinesa, está sendo desenvolvida pela empresa  e pelo  Instituto de Biotecnologia da Academia Militar de Ciências Médicas. Essa candidata é a primeira a apresentar seus resultados em uma revista importante como a Lancet. O estudo relata que a fase I não foi multicêntrica nem randomizada. A intenção do estudo foi a de avaliar, 7 dias depois da injeção da vacina, os efeitos colaterais causados; e aos 28 dias, sua segurança. O estudo também mediu a quantidade de anticorpos neutralizantes encontrados nos participantes.

O artigo conclui que a candidata é segura, já que no 28º dia não havia mais nenhum efeito colateral presente; e produziu resposta imune pois foi detectada a presença de anticorpos neutralizantes – os que a gente precisa para ficar imune – e também de resposta de células T, um indicador de imunização confiável. Sempre de acordo com o paper,  a vacina cumpriu dois dos requisitos na trajetória de uma candidata a vacina até a comercialização: o produto, nesses 108 sujeitos que participaram do estudo, gerou imunidade e não ofereceu nenhum risco.

A vacina da Moderna

Em 18 de maio, a Moderna anunciou, por meio de um press-release, que sua vacina baseada em mRNA mostrou resultados promissores na fase I de testes em humanos. A empresa destacou no comunicado a produção de anticorpos em oito participantes, do tipo capaz de neutralizar o Sars-CoV-2, semelhantes aos encontrados em quem já se infectou pelo vírus. O estudo incluiu 45 voluntários que receberam doses diferentes da vacina (25 microgramas, 100 microgramas e 250 microgramas). A empresa afirma também que a vacina mostrou ser segura, com efeitos adversos (manchas na pele) em apenas um dos vacinados e boa tolerância.

Na técnica utilizada pela Moderna, os cientistas trabalharam com o mRNA do vírus. Parte do ácido nucleico é injetado no voluntário. Espera-se, então, que as células do organismo passem a produzir proteínas do vírus, que levarão o sistema imune a construir uma resposta.

O desenvolvimento aconteceu rapidamente porque a Moderna já estava utilizando a mesma técnica para outras oito vacinas.  Uma nova etapa do estudo clínico, para torná-lo mais amplo, deve ter início em julho.  Parte das pesquisas da Moderna está sendo financiada pela Coalização de Inovações em Preparação de Epidemias (CEPI), entidade criada pela Bill &Melinda Gates Foundation para apoiar estudos em tratamentos e vacinas potenciais contra grandes epidemias. O NIH (National Institutes for Health) também tem uma pequena participação neste projeto.

A notícia do avanço das pesquisas alavancou as ações da farmacêutica em mais de 20% no dia do anúncio, mas a crítica à forma de divulgação das informações (via press release) desencadeou a desconfiança entre cientistas e também dos investidores – as ações fecharam em queda de 10,4% no dia seguinte. A reportagem do site Stat News foi um dos fatores que levou à queda das ações.

No dia 29 de maio, outro press-release informou que a fase II terá 600 participantes e que o desenho da fase III está em fase de aprovação.