Dexametasona é a primeira droga a salvar vidas de casos graves de covid-19, diz pesquisa de Oxford

Por Adriana Matiuzo Santana, 17.06.2020

Dados preliminares de um estudo científico feito por um consórcio de pesquisadores britânicos, sob coordenação da Universidade de Oxford, apontam que o uso do corticoide dexametasona trouxe uma redução de até 35% nas mortes de pacientes acometidos pela covid-19 que necessitaram de intubação. A notícia foi vista com otimismo pela comunidade médica, mas também trouxe apreensão, devido a uma possível explosão de casos de automedicação no mundo. O uso precoce ou preventivo da dexametasona não é indicado e pode prejudicar quem se automedicar. 

No Brasil 

A Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) foi uma das primeiras entidades a se pronunciar sobre a droga no Brasil. Após analisar os resultados do estudo, emitiu nota em que considerou a data do anúncio (dia 16 de junho) “histórica” e recomendou que todo paciente com covid-19, em ventilação mecânica ou que necessite de oxigênio fora de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), receba a medicação via oral ou endovenosa, com a prescrição de seis mg/dia durante 10 dias. 

A droga 

A dexametasona, utilizada pela comunidade médica desde os anos 1960, é usualmente prescrita para várias doenças, principalmente, artrite reumatoide e alergias graves. Desde 1977, faz parte da lista de medicamentos essenciais da Organização Mundial da Saúde (OMS) e, por isso, está fora de patente e prontamente disponível em todo o mundo. 

Os corticoides são uma classe de medicação que age contra as inflamações, um dos problemas mais sérios causados pelo vírus Sars-CoV2. Eles fazem com que o sistema imune reaja a este tipo de ação dos vírus. Por isso, o uso de esteroides e anti-inflamatórios nos pacientes é uma das apostas dos médicos.

Considerada de baixo custo, a dexametasona poderá ser a primeira medicação comprovadamente eficaz no tratamento da covid-19. Até agora, não existe nenhuma droga com ação efetiva que garanta melhora para o paciente e cuja ação tenha sido comprovada cientificamente para o tratamento. 

O estudo 

O estudo com o corticoide envolveu 2.104 pacientes, selecionados aleatoriamente, e medicados com dexametasona por via oral ou intravenosa. Eles foram comparados com outros 4.321 pacientes tratados convencionalmente. O resultado foi uma redução de mortes de 35% para os que tiveram que usar respiradores e de 20% entre os que precisaram de suporte de oxigênio. Em caso menos severos da doença em pacientes internados, o índice de mortes teve redução de 13%.

Os pesquisadores ainda não publicaram os resultados do estudo em revista com revisão por pares, o que deve acontecer em prazo curto. O levantamento faz parte de um megaestudo com diferentes drogas – uma delas, a cloroquina que, para o grupo de pesquisadores, não mostrou eficácia. Esta ampla pesquisa britânica envolve 11.500 pacientes aleatórios de 175 hospitais da Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, divididos em grupos com protocolos comuns ou com tratamentos que estavam sob avaliação, como, por exemplo, o do tocilizumabe, o de um combo anti-HIV, o da azitromicina e o do plasma de pessoas que se recuperaram e tinham anticorpos contra o coronavírus. 

O Reino Unido lidera agora uma iniciativa para incluir imediatamente a dexametasona nos protocolos de atendimento e tornar este tratamento padrão, segundo informou o ministro da Saúde britânico, Matt Hancock. 

Organização Mundial de Saúde 

Em entrevista coletiva realizada dia 17 de junho, a Organização Mundial da Saúde (OMS) disse que o estudo representa um avanço científico capaz de salvar vidas, mas também pediu “cuidado” para que o consumo não seja banalizado em função da pandemia de coronavírus. 

Nada de automedicação

A preocupação de parte da comunidade médica agora gira em torno do comportamento dos pacientes ao redor do mundo. Há um temor de que ocorra uma explosão de casos de automedicação, como aconteceu com a cloroquina após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, citar publicamente o estudo francês sobre essa medicação que havia sido postado no dia 11 de maio no repositório de pesquisas medRvix

A fala do presidente norte-americano, reforçada pelo presidente Jair Bolsonaro no Brasil, provocou uma corrida às farmácias para aquisição da cloroquina sem indicação médica, colocando em risco os consumidores e desfalcando os pacientes que já a utilizavam regulamente para tratamento de outras doenças, como o lúpus. 

Em entrevistas, médicos infectologistas têm ressaltado que a medicação só deve ser usada nos casos definidos pelo estudo, ou seja, por aqueles que estão internados com covid-19. Não há nenhuma indicação de utilização para quem esteja com sintomas leves, se tratando em casa.