Médica da UTI é a primeira a se candidatar como voluntária em estudo da vacina da Sinovac no Emílio Ribas

Por Adriana Matiuzo, 15.07.2020

Otimista. É assim que a médica intensivista e infectologista Fernanda Gulinelli, de 41 anos, define o seu sentimento em relação à vacina produzida pela farmacêutica Sinovac. Ela foi o primeiro profissional de saúde a se inscrever, no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, como voluntária para o estudo de fase III, previsto para ter início no dia 20 de julho. O Emílio Ribas é um dos 12 centros de pesquisa brasileiros escolhidos para contribuírem com o estudo coordenado pelo Instituto Butantan e que pretende trabalhar com 8.870 voluntários.

Fernanda é médica da linha de frente da UTI e atua desde março com pacientes de covid-19, assim como seu marido, o intensivista André Gulinelli. Ela tem uma filha de quatro anos e, até agora, conseguiu evitar a doença. Considera que poder participar da pesquisa com a vacina é um privilégio, um sinal de respeito aos pacientes que ela já atendeu muitos, inclusive, acabaram evoluindo a óbito e, também, um ato de altruísmo. Ela afirma que se sentiu à vontade para ser voluntária, por causa da seriedade das instituições envolvidas.

Estou realmente muito otimista e conheço o desenho deste estudo. É uma vacina que já teve resultados positivos anteriormente. Participar desse estudo, acima de tudo, é minha demonstração de amor à população, como médica e como ser humano”, disse Fernanda.

A preparação

Desde o início do mês têm acontecido inúmeras reuniões no Emílio Ribas para definir o funcionamento prático do projeto. A ala de pediatria do ambulatório está sendo pintada e transformada em um espaço específico para o estudo. O local antes da pandemia oferecia atendimento multidisciplinar para crianças e adolescentes com HIV, o que acabou sendo suspenso para evitar a exposição dos pacientes.

Segundo a médica infectologista Ana Paula Veiga, responsável pelo projeto no Emílio Ribas, 22 profissionais estão sendo recrutados para trabalhar com o estudo. No dia 15 de julho, o instituto disponibilizou formulários online para os candidatos a serem voluntários poderem se inscrever. Eles podem ser tanto do próprio hospital, quanto de outras unidades de saúde.

A ideia, segundo Ana Paula, é trabalhar apenas com atendimento agendado para evitar aglomeração de pessoas. Cada voluntário deverá permanecer cerca de duas horas no espaço, visto que deve passar por uma consulta médica, fazer o teste rápido, o teste RT-PCR e ainda tirar todas as dúvidas com médicos e enfermeiros para poder assinar um termo de consentimento.

Após a aplicação da vacina, cada voluntário terá que ficar em observação por uma hora e só então poderá ser liberado pela equipe. Apesar disso, estamos confiantes de que os efeitos colaterais poderão ser, no máximo, dor no local da aplicação, como é comum acontecer com outras vacinas”, explicou a médica.

O diretor do Instituto Emílio Ribas, Luiz Carlos Pereira Júnior, reforça que o voluntário ainda deverá voltar para receber uma segunda dose e que terá de passar por mais seis consultas presenciais nos próximos meses. Como se trata de um estudo duplo-cego randomizado, 50% dos voluntários receberão a candidata a vacina e 50% receberão placebo. Nem os profissionais que aplicarão, nem os voluntários saberão o que estão tomando.

Todos serão monitorados para podermos saber a real eficácia da vacina, inclusive a durabilidade dos anticorpos que serão produzidos. Após a publicação, nós informaremos a todos os voluntários quem tomou a vacina e quem tomou placebo”, explicou.

O Emílio Ribas na pandemia

Dos 1.660 profissionais do instituto, cerca de 500 trabalham diretamente com pacientes de covid-19 desde o início da pandemia. O Emílio Ribas tem 140 anos e é conhecido pelo enfrentamento de epidemias, como a de meningite (anos 1970), a de aids (anos 1980 e 1990), a de gripe H1N1 (2009), a de febre amarela (2018) e passou por treinamentos intensos em 2014 com a possibilidade de chegada do ebola ao Brasil (o que não aconteceu).

Para se cadastrar no centro do Emílio Ribas, clique aqui.

Veja se você pode se candidatar

Outro centro do SUS, o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-USP), informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que também já está trabalhando no cadastramento dos voluntários.

O Instituto Butantan disponibilizou um aplicativo para que os profissionais de saúde possam checar se estão aptos a participarem do estudo, de acordo com as regras do protocolo.