O surto da peste em Santos, o Butantan e a covid-19

Por Carlos Jared, 17.06.2020*

A Peste Negra, também denominada Peste Bubônica, fazendo referência aos “bubões”, manchas negras de sangue, decorrentes do inchamento dos gânglios linfáticos nas virilhas e nas axilas, constituiu-se em várias pandemias que atacaram o mundo em diversas ocasiões, possivelmente desde o século VI (ou mesmo até bem antes). Deixou um rastro de morte que se arrastou pelos últimos 14 séculos. Somente entre 1348 e 1349, dizimou, segundo o papado, 24 milhões de pessoas, em torno de um terço da população da Europa na época. Pesquisas recentes, entretanto, indicam que o número de vítimas possa ter sido bem maior. 

Seguindo a sua funesta trajetória, em 1563, a peste ceifou a vida de mais de vinte por cento da população de Londres. Parcelas ainda maiores foram exterminadas nos anos posteriores em várias cidades do mundo. Nos três séculos seguintes, em intervalos médios entre oito e 12 anos, ela reaparecia, trazendo a terrível sensação de que aquela noite podia muito bem ser a última... Contudo, foi somente em 1886 que Alexandre Yersin e Shibasaburo Kitasato identificaram, em pesquisas independentes, o “micróbio” causador da peste, uma bactéria que, homenageando o pesquisador mais afamado, foi denominada Yersinia pestis. Em 1895, Yersin, Albert Calmette, Émile Roux e Amédée Borrel conseguiram desenvolver o primeiro soro antipestoso. Alguns anos depois, em 1898, Paul-Louis Simond elucidou a transmissão da peste e o envolvimento de pulgas de rato como transmissores.

Inserido no contexto histórico do combate à peste, o Instituto Serumtherapico do Estado de São Paulo foi fundado oficialmente em 1901. Objetivava a produção do soro, já desenvolvido por Yersin e colaboradores, a ser usado, imediatamente, no controle do surto de peste que, desde 1899, grassava na Baixada Santista, a partir do Porto de Santos, e prognosticava uma rápida expansão. O surto foi controlado, mas o Instituto, pela eficiência e importância estratégica na Saúde Pública, persistiu, adquirindo o consagrado nome de Instituto Butantan (usado desde o início), somente através de decreto de 1925. Com a habilidade administrativa e a grandiosa criatividade do cientista Dr. Vital Brazil, o Instituto transformou-se em um dos mais prestigiosos centros científicos e grande produtor mundial de soros e vacinas. Firmou-se, também, internacionalmente, como uma instituição de excelência no estudo zoológico das serpentes e aracnídeos, no bioquímico e imunológico dos venenos e toxinas em geral e, também, como grande centro cultural. Dessa forma, o Butantan está intimamente ligado à Ciência e é uma das instituições mais conhecidas pelo povo brasileiro.

A peste bubônica atualmente está controlada no mundo, mas ainda sobrevive, em especial, na África. No Brasil, o último caso ocorreu em 2005, no município de Pedra Branca, no Ceará, mais de 100 anos depois de desembarcar no Porto de Santos.

Pela minha parte, confesso que me considero um ‘beneficiário’ da peste, tanto pelo lado familiar, quanto pelo profissional. O meu pai, um grande idealista, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, onde atuou como um dos “pracinhas” da Força Expedicionária Brasileira, foi trabalhar nos confins do Nordeste, no antigo Serviço Nacional da Peste, como guarda-chefe, na linha de frente contra a doença. Os seus filhos nasceram no meio do sertão, em circunstâncias não muito favoráveis, entre o fim dos anos de 1940 e início dos de 1950. Logo depois que nasci, em 1953, voltamos a São Paulo e logo meu pai se encaixou no Butantan, trabalhando na parte administrativa, até a sua aposentadoria em 1981. Sempre convivi (e vivi) na Instituição, que me fascinava pelo seu valor científico e histórico, e acabei me estabelecendo profissionalmente nela, com uma carreira iniciada em 1972.

Comecei na antiga Seção de Microscopia Eletrônica, criada para introduzir essa técnica, que ainda engatinhava na Ciência. Um dos primeiros microscópios eletrônicos chegou ao Brasil em 1952, adquirido via CNPq pelo virologista Aristides Vallejo Freire, ex-diretor do Butantan de 1963 a 1966, e Chefe da então Seção de Virologia. Para o ensino das técnicas de uso, veio ao Butantan como professor, em 1953, Helmut Ruska, irmão de Ernst Ruska, descobridor da microscopia eletrônica. O então técnico, Adolpho Brunner Jr., de origem suíço-germânica, tornou-se diretor da Seção de Microscopia Eletrônica, criada com a chegada do microscópio, e destacou-se com um pioneiro na área, desenvolvendo os seus trabalhos até 1997, quando se aposentou. Ernst Ruska, com a descoberta da microscopia eletrônica, ganhou o Prêmio Nobel de Física em 1986. A Seção de Microscopia Eletrônica deu origem ao atual Laboratório de Biologia Estrutural, tornando-se uma unidade multiusuária nas várias microscopias. Nas suas linhas de pesquisa, especializou-se, sobretudo, no estudo das glândulas de veneno e de peçonha, com foco especial na história evolutiva de répteis e anfíbios. 

A peste, embora constituindo um dos grandes flagelos da humanidade nos últimos milênios, também nos propiciou o fato positivo da criação de uma instituição centenária que, no momento, está sendo seguida de perto pelo povo brasileiro em geral. Diante da pandemia do novo coronavírus, o Butantan, mantendo a sua antiga vocação, dispõe de metodologia para a fabricação de uma vacina, já iniciada por uma empresa chinesa, uma das gigantes mundiais na área. As nossas lideranças, juntamente com uma competente rede de colaboradores, estão totalmente imersas nesse empreendimento, visando vencer o maior desafio dessa geração e que, sem dúvida, interferirá nas nossas vidas nos próximos anos. A maior parte dos brasileiros, confinada e amedrontada com o número de mortos e infectados, vê com bons olhos os ensinamentos e a herança deixada pelo excelente trabalho realizado no surto da peste em Santos. Esse legado nos permite sentir confiança no sucesso desse novo empreendimento. A História da Humanidade nos mostra que os acontecimentos passados podem ser encarados em escala que varia desde o extremo positivo ao negativo. A dinâmica de interpretação desses acontecimentos é dependente somente de questões circunstanciais.

*Carlos Jared é pesquisador sênior do Instituto Butantan, especializado na biologia e história natural de anfíbios e répteis.

 

Informações complementares:

Clique e veja a história de Vital Brasil.

A peste bubônica foi tema da exposição Grandes Epidemias do Instituto Butantan.

Uma raridade histórica: vídeo de 1926 mostrando a extração de veneno e produção de soro no Instituto Butantan.