Vacina feita a partir do vírus inativado: o caminho do Butantan contra a covid-19

Redação, 11.06.2020

Entre as empresas e institutos de pesquisa envolvidos com o desenvolvimento farmacêutico, a tendência é para candidatas a vacinas contra a covid-19 construídas em laboratório. A maior parte das candidatas ou usa diretamente DNAs ou RNAs do SARS- CoV-2, ou vírus engenheirados acoplados a partículas feitas sob medida, ou ainda apenas essas partículas, tudo para provocar o sistema imune e levá-lo a produzir anticorpos. Essas abordagens são filhas da tecnologia do DNA recombinante, nascida nos anos 1980.

Ocorre que vacinas estão na história humana muito antes que se abrisse a possibilidade de construir pedaços de genes em laboratórios. Há métodos bem menos sofisticados (com a vantagem de estarem bem estabelecidos) para ativar o sistema imune e obter uma resposta protetora contra um microrganismo causador de doença.

No dia 11 de junho, o Instituto Butantan anunciou que se associou à empresa chinesa Sinovac para realizar no Brasil a fase III dos estudos sobre a eficácia da vacina em humanos e a futura fabricação, com a transferência da tecnologia da empresa chinesa.

A vacina inativada da Sinovac

A rota de sua candidata a vacina começa com a multiplicação do vírus da covid-19 em células, seguida de sua inativação, por meio de um produto químico. O sistema imune costuma reagir a esses preparados com a secreção de anticorpos feitos sob medida contra o patógeno; e com o armazenamento de um conjunto de células que farão mais desses anticorpos quando houver um contato com o patógeno depois da vacinação. É assim a vacina contra a pólio, contra o vírus do sarampo.

Em maio, a revista Science publicou os resultados de testes feitos com essa candidata a vacina – basicamente, o próprio vírus da covid-19 multiplicado, purificado das células em que cresceu e devidamente neutralizado, para não causar doença – em camundongos, ratos e macacos Rhesus. 

O teste em macacos Rhesus

Os autores do estudo, pesquisadores da empresa e da academia, aplicaram a candidata a vacina em quatro grupos de Macaca mullata: dois grupos de quatro receberam três doses iguais da vacina, no músculo, com intervalos de sete dias – um grupo recebeu 1,5 µg a cada vez, outro 6 µg. Um terceiro grupo recebeu um adjuvante, e não vacina; o quarto, placebo. Depois da terceira dose, os pesquisadores infectaram os dois grupos vacinados com o SARS-CoV-2.

Segundo o descrito no artigo da Science, ambos os grupos vacinados mostraram proteção parcial ou total contra a doença. A proteção gerada foi do tipo anticorpos que neutralizam o vírus, e anticorpos que se ligam à proteína S do coronavírus, quantificados em dias determinados depois da imunização, e em níveis similares àqueles medidos em humanos infectados; houve também ativação de linfócitos T, o que os vacinologistas consideram promissor. Os animais foram desafiados no vigésimo segundo dia depois da imunização. Nos animais vacinados, o tecido dos pulmões mostrou pequenas mudanças, em alguns lobos. A carga viral foi substancial menor do que nos animais não vacinados.

O método de fabricação

O artigo da Science descreve pormenorizadamente os resultados mostrados também por camundongos e ratos. O trabalho dá, ainda, uma visão geral do processo que se utilizou para produzir o preparado usado nos animais. Por estarmos atravessando a pandemia, as empresas têm a preocupação de argumentar pela viabilidade de produção em massa e a custo exequível.

De acordo com o artigo, a multiplicação dos vírus em células Vero (de rim de macaco verde da África, obtidas comercialmente) resultou em bom rendimento, na quinta passagem dos vírus pelas células, com adicionais cinco passagens para testar a estabilidade. A posterior inativação foi realizada com a substância betapropiolactione, e hidróxido de alumínio foi acrescentado como adjuvante.

As cepas do vírus

Para o estudo, os autores selecionaram 11 cepas de SARS-CoV-2. Usaram uma das cepas para inativar e purificar, e usaram para o desafio nos animais as outras dez. Segundo o artigo, camundongos, ratos e macacos produziram anticorpos contra as dez cepas, uma indicação de que a vacina poderá ser usada contra parte grande das cepas em circulação.