A Covid-19 e a contribuição na mudança da visão de mundo


Por Carlos Jared, 14.07.2020*

A origem do universo e o início da vida humana são temas recorrentes nas descrições mitológicas de diversos povos, baseados nos seus costumes e tradições. Parece que existe, nessas descrições, uma congruência na aceitação de que a vida é sempre penosa, confusa e carregada de conflitos. Como nota a filósofa britânica Mary Midgley (1919-2018), especialista em ética e comportamento animal, essas descrições mitológicas quase sempre envolvem, concomitantemente, uma explicação do motivo pelo qual o ser humano tem que se submeter a normas que, invariavelmente, frustram os seus desejos. Assim, o sofrimento, as adversidades e a angustiante falta de sentido da existência humana movem-no na submissão a um árbitro supremo, uma entidade divina e onipotente, de caráter holístico, que se constitui na própria essência da moralidade, ditando o que é “certo” e o que é “errado”.

Charles Darwin (1809-1882) foi o principal idealizador da teoria que daria as bases para acirrar o grande conflito entre a cultura e o sentido da vida. Ele próprio, por ser um teólogo e cientista, é um exemplo bem significativo desse eterno embate. Na primeira edição do “Origem das Espécies”, em 1859 (e depois, confidencialmente, em uma carta ao seu amigo norte-americano Asa Gray, escrita em 1860), mostrou-se aturdido, perguntando-se como um Deus benevolente e onipotente teria criado deliberadamente os icneumonídeos, vespas que injetam ovos no corpo de hospedeiros, para que as larvas se desenvolvam, consumindo-os vivos, de dentro para fora, até que atinjam um grau de crescimento suficiente para que se tornem independentes. Em outra passagem do “Origem das Espécies”, Darwin faz referência também às serpentes, sobretudo às cascavéis, que possuem presas venenosas para matar as suas vítimas indefesas. Em relação a elas, e diferentemente da observação sobre os icneumonídeos, Darwin dá crédito à “justiça natural”, alegando que as serpentes dispõem de um chocalho que anuncia o iminente envenenamento, dando chance às vítimas de fugirem. Não evidencia, entretanto, que as serpentes só tocam o chocalho quando visam se defender e não se alimentar.

Vivenciamos um eterno conflito no fogo cruzado entre o que nos foi imposto culturalmente (e até mesmo geneticamente) e o inexorável modus operandi da Natureza, expressado pelas manifestações do mundo natural, como o exemplo dos icneumonídeos de Darwin. Tudo aponta para a existência, ainda que velada, de um grande investimento na manutenção desse fogo cruzado, que é, em grande parte, a base do nosso sofrimento, já que nos defronta diretamente com o conceito de “justiça”. É difícil aceitar, baseado na fria e neutra Ciência, que a Natureza não é nem boa nem má, é simplesmente isenta! Os conceitos de bem e de mal são estritamente humanos: possivelmente, durante a nossa história evolutiva, nós criamos a Ética e, sem dúvida, ela é intrínseca ao extenso universo espiritual da nossa espécie. Está agregada ao nosso comportamento e convive com a nossa estrutura mental, organizando e classificando a realidade, dando nome às coisas, colocando valores, definindo o certo e o errado. Dessa forma, tendemos ou, ao menos, idealizamos, converter o mundo em uma extensão do nosso ser. Essa nossa peculiaridade, evidentemente, não tem a mínima ação sobre a dinâmica natural do mundo. Ele continua tendo a sua realidade exclusiva, seguindo as suas próprias leis. Como é largamente difundido, a tendência da natureza parece ser o caos: a ordem contradiz essa orientação, pois demanda gasto de energia. A vida é um exemplo significativo, contrapondo-se ao caos: os seres vivos debatem-se obstinadamente para se manter organizados. Despendem um enorme gasto de energia se alimentando, reproduzindo e se defendendo.

Por outro lado, o modo como vivem esses seres vivos na natureza, independe dos nossos valores e dos nossos conceitos de justiça. Nesse contexto, a existência dos predadores e dos parasitas, por exemplo, torna-se indiscutivelmente irrelevante. São considerados, simplesmente, seres vivos que desenvolveram modos de vida com diferentes meios de obtenção de energia.

Na tentativa de explicação do fogo cruzado entre a cultura e o modus operandi da Natureza, é quase sempre necessário recorrer à Religião, escolhida por praticamente todos os povos, desde o aparecimento do Homo sapiens, como proteção e conforto. Logicamente, a interpretação religiosa e dogmática de mundo é bem diferente (ou, às vezes, antagônica) daquela racional, gerada pela Ciência. A Bíblia, através “do terror da noite e da seta que voa de dia”, do célebre Salmo 91 (Salmo 90, na tradução grega, feita a partir do original hebraico), representa a fragilidade do entendimento do religioso judaico-cristão, frente à “inconstância” do mundo, que não lhe fornece a mínima segurança. É necessário estar sempre atento, pois ele só tem proteção quando habita “o esconderijo do Altíssimo e descansa à sombra do Onipotente”.

A Ciência Moderna, desde os seus primórdios no Renascimento, precisou (e, em muitas ocasiões, ainda precisa) brigar para ter a sua prática livre. O mundo dogmático é obstinado e paralisante, não permitindo que outros tipos de conhecimento convivam harmonicamente ao seu redor. Ao longo dos últimos séculos, entretanto, a humanidade foi adquirindo, a muito custo, um ambiente de concórdia, onde os princípios da Ciência foram sendo gradativamente aceitos. Um dos participantes do estabelecimento da Síntese Moderna, que realmente consolidou a Teoria da Evolução, Theodosius Dobzhansky, era um fervoroso católico ortodoxo que, segundo a sua própria esposa, nunca dormia sem realizar as suas orações. Acreditava que, “no princípio”, Deus havia criado a evolução e tudo se seguiu, sem a necessidade da sua intervenção. Foi ele que proferiu a célebre frase que “nada faz sentido em Biologia a não ser à luz da evolução”. Para Dobzhansky, como para muitos outros, o referido fogo cruzado realmente deixou de ter significação. Com a sua crença, a existência dos icneumonídeos, das cascavéis, dos coronavírus etc, passou a ser considerada normal. A despeito dos detratores, é fato que todos esses seres fazem parte da natureza, somente com diferentes modos de vida. Contudo, para que possamos entender a existência dos coronavírus ou das “setas que voam de dia”, é necessária uma mudança na visão de mundo. Afinal de contas, o que precisa ser melhor definido é o conceito humano de “mal” e “bem”, “certo” e “errado”, “objetivo” e “subjetivo”...

*Carlos Jared é pesquisador sênior do Instituto Butantan, especializado na biologia e história natural de anfíbios e répteis.