A Covid-19 e as lembranças do passado

Por Carlos Jared, 21.07.2020*

Sentimos na pele diariamente como a pandemia da covid-19 vem permeando totalmente as nossas vidas nesses últimos tempos. Para mim, como para uma boa parte da população, já se completaram quatro meses em ‘prisão domiciliar’, talvez com a única vantagem de não usar tornozeleira. Mesmo assim, depois de várias tentativas de amenizar o sofrimento deste isolamento, continuamos aterrorizados -- o que, diga-se de passagem, foi altamente ampliado pelas atitudes das autoridades governamentais, principalmente as da esfera federal. Uma boa parte da população, principalmente aquela pertencente ao chamado grupo de risco, continua ‘encarcerada’. Afinal de contas, os casos de contaminação, com algumas exceções atuais na Região Norte, continuam a crescer. Agora há pouco, a fim de abastecer os estoques de sobrevivência, eu e a minha esposa Martinha, grande companheira - e que o tem sido com mais intensidade durante essa época insana -, fomos ao sacolão e ao supermercado, uma das poucas atividades externas que nos permitimos exercer, ainda que temerosamente. Sempre que retorno dessa minha falsa sensação de liberdade e da lembrança dos prazerosos e descuidados tempos passados, regresso ao aconchego do lar, onde me sinto seguro, e, mesmo com toda a infeliz situação, por incrível que pareça, tenho me sentido alegre. É uma sensação que eu posso classificar principalmente como infantil.

Plagiando o velho Bernard Shaw que, certa vez, afirmou que “nós não paramos de brincar porque envelhecemos. Nós envelhecemos porque paramos de brincar”, tenho naturalmente voltado aos meus lúdicos tempos. Posso garantir que só o tipo de brincadeira mudou. A sensação de curiosidade e de me espantar com sentimentos novos e bem triviais parece continuar a mesma. Todos os meus antigos livros, que ainda mantenho carinhosamente, acabaram deixando as estantes. Estou também pacientemente revendo todas as minhas antigas fotografias, já um tanto amareladas, dos meus tempos de criança e jovem, magro e inconsequente, com a família, particularmente a minha mãe, atualmente com 95 anos, mostrando a sua postura dominante e compenetrada.

Assim, inconscientemente, acabei aproveitando essa brusca e compulsória parada para reavaliar o passado, em “busca dos tempos perdidos”. Lembro-me do Butantan antigo, com o seu aconchegante ambiente de fazenda. Afinal de contas, venho convivendo com ele desde meados da década de 1950. Dos seus quase 120 anos, pelo menos na metade deles eu estive no seu entorno. Lembro-me da Estrada de Itu, a atual Avenida Corifeu de Azevedo Marques, do ônibus que ia até o Largo de Pinheiros, com o ponto inicial perto do antigo restaurante, onde hoje é a praça ao lado da Biblioteca. No largo de Pinheiros, tomávamos os bondes que nos levavam até o Brás, onde os meus avós moravam.

Tive a feliz sorte de ter toda a área do parque do Butantan como o quintal da minha casa. Eu e os meus amigos, todos filhos de antigos funcionários do Instituto (incluindo os pesquisadores que, na época eram chamados de biologistas), vasculhávamos a área que, inclusive, encampava a USP, que, na época, não era murada. Passávamos várias das nossas “tardes fagueiras”, pescando ou nadando no antigo “Lagoão”, que atualmente é a raia olímpica. Essas épocas de pandemia, realmente estimularam o meu senso de gratidão, não só pelo Butantan como um todo, mas, especificamente pela sua Biblioteca, onde passei uma grande parte do meu tempo por entre as suas silenciosas e aprazíveis salas de estudo, sob a coordenação da doce e motivadora Dona Carmen Aleixo do Nascimento, que tinha uma generosidade tão grande que fazia com que eu me sentisse um importante pesquisador. Mesmo com a distância de idade, eu a considerava uma verdadeira amiga. Posso garantir que, nos meandros dessa biblioteca, tive a oportunidade e a sorte de conviver diretamente com os antigos biólogos e naturalistas, principalmente os herpetólogos, através dos seus livros e atlas, pertencentes ao vastíssimo acervo de obras que, depois de uma descuidada (e infeliz, tenho de admitir!) reavaliação de prioridades de temas, acabou sendo disperso em outras instituições, privando-nos do seu convívio. Lembro-me também do antigo museu, situado onde hoje é a Casa Afrânio do Amaral, onde eu sempre contava com a ajuda do Sr. Aristides. Durante as minhas constantes e demoradas visitas, ele recebia-me carinhosamente, apreciando e estimulando a minha curiosidade infantil.

Essa pandemia, com o enorme tempo que forçosamente nos concede para simplesmente refletirmos, favorece a reavaliação de vários aspectos da nossa vida, tanto individualmente, como em sociedade. É fácil constatar o quanto de tempo gastamos com coisas inúteis e que não colaboram em nada para o nosso crescimento pessoal. Pelo ponto de vista da própria pandemia (mas não só!), avalio o quanto as nossas atitudes sociais são destrutivas a nós próprios, quando visam só o bem-estar estritamente individual.

Tenho certeza que essa tradição individualista, muito presente na nossa cultura, é um dos grandes entraves ao nosso desenvolvimento social e econômico. É ela que nos leva a acreditar que “o mundo existe porque eu existo!”. Agindo e pensando dessa forma, pode-se dizer que somos o fruto do individualismo dos nossos antepassados e, sem dúvida, se continuarmos perpetuando esse pensamento, deixaremos a cultura do nefasto imediatismo seguir para as gerações futuras.

Agora há pouco presenciei um enfrentamento entre o vigia do supermercado e duas senhoras, de aparência muito elegante, que se sentiam no direito de não usarem máscara. É o direito, apregoado inclusive por várias das nossas autoridades, de ir e vir, segundo elas, uma prerrogativa constitucional. Aqui peço humildemente o amparo de Gilberto Freire, para confirmar o nosso passado “Casa Grande & Senzala”. Atualmente, ainda que esteja diminuindo verbalmente, o conhecido “sabe com quem você está falando?”, continua bem vivo, mas escuso, incentivado pelos vários preconceitos inerentes à nossa cultura, baseada na exploração e no escravagismo. Com essa pandemia, tenho me aprimorado no estudo do vírus do individualismo e do medo da introspecção. Somos seres sociais e o individualismo, quando analisado, mostra-nos o seu lado perverso. Quando somos obrigados a fugir do próximo e conviver com a introspecção, podemos nos desestruturar. O profundo olhar interno tem a potencialidade de levar diretamente ao nosso grande abismo interior que, segundo Fernando Pessoa, é um poço escuro e viscoso!

*Carlos Jared é pesquisador sênior do Instituto Butantan, especializado na biologia e história natural de anfíbios e répteis.