A Filosofia da Ciência, a falseabilidade e as pesquisas sobre a covid-19

Por Carlos Jared*, 10.06.2020

A minha sábia avó, que tinha uma visão muito prática da vida, para moderar as minhas perguntas inconvenientes, fazendo com que eu me tornasse um menino mais objetivo, sempre contava a história de uma centopeia que era famosa entre os animais do local onde vivia, já que era uma excelente bailarina. Certo dia, logo após uma de suas graciosas apresentações a uma plateia muito entusiasmada, a invejosa joaninha, que só era admirada pelo seu vistoso colorido exterior, fez-lhe a fatal pergunta: minha querida, como você consegue coordenar todas essas suas patinhas durante a dança? A centopeia levou muito a sério a pergunta, pensou tanto na maneira como movia o corpo e as patinhas que, além de nunca ter respondido ao questionamento, os seus movimentos foram se desordenando e ela nunca mais conseguiu voltar a dançar. Essa história serve para ilustrar o risco que os cientistas correm ao tentarem se aventurar no entendimento da Filosofia da Ciência. Mesmo relacionada à Ciência, essa área está longe da objetividade da pesquisa científica. Quando incitados a se aventurar em outras áreas, os cientistas tendem a afirmar que o seu conhecimento específico já basta para a resolução das perguntas que tentam responder em suas especialidades.

O filósofo austro-inglês Karl Popper (1902-1994) é reconhecido como um dos grandes nomes da Filosofia da Ciência do século passado. Um dos conceitos mais importantes da Filosofia da Ciência, introduzido por ele, foi o da falseabilidade (ou refutabilidade). Ele propõe que não seja usada a “verificabilidade” como critério para se avaliar a validade das proposições científicas, como as leis, teorias, hipóteses etc. Popper opta pelo termo “falseável” (ou testável, passível de ser desmentido) no lugar do “verificável.” A Teoria da Gravidade é realmente científica porque foram realizados, nas nossas condições, vários experimentos para refutá-la, mas todos, até o momento, foram frustrados. Nunca haverá garantias de que, em circunstâncias diferentes (em outros mundos, por exemplo) não exista gravidade e que a maçã caia para cima. Até 1697, considerava-se que todos os cisnes eram brancos, pois a brancura era a regra (ou a lei) para a cor dessas aves. Este conceito caiu por terra naquele ano, quando foram encontrados cisnes negros na Austrália. Esse é um excelente exemplo da rigidez dos conceitos que embasam os nossos costumes e as nossas definições. O nosso pensamento é, quase sempre, monitorado pela constância, o que demonstra a sua grande preferência em optar pela manutenção da (suposta!) segurança: como sempre tem acontecido, é certeza que continuará acontecendo... A falseabilidade mostra que nunca se pode alcançar a verdade absoluta: devemos ter humildade e admitir que o conhecimento científico é momentâneo e não permanente. Assim, uma proposição só pode ser qualificada como cientificamente significativa quando houver tentativas constantes de desmenti-la, e não de verificar a sua veracidade.

O progresso da Ciência também é totalmente dependente da falseabilidade. Tomemos como exemplo o estudo da biologia dos escolecofídios (Scolecophidia), um grupo de serpentes bem singulares e pouquíssimo conhecido, situando-se na base da evolução das serpentes atuais. A bibliografia citada nos poucos trabalhos com esses animais é antiga, às vezes datando do século passado, ou mesmo do XIX. Poucos pesquisadores atuaram nesse tema, mesmo sendo importante na história evolutiva das serpentes. Entretanto, quando os temas são voltados à saúde humana, como câncer, aids, diabetes, covid-19 etc, a bibliografia citada é bem recente, chegando a poucos anos ou, até mesmo, meses. Dessa forma, para o rápido progresso da sua área, o cientista, em vez de procurar a solidez, deveria torcer para que o seu trabalho recém-publicado seja contestado. Seria preferível que esse seu trabalho, arduamente desenvolvido, redigido e publicado, fosse ultrapassado por outros, com argumentos mais robustos e ajustados ao cenário momentâneo do desenvolvimento científico.

Para melhor ilustrar a falseabilidade, fiz uma pesquisa rápida na Web of Science, um dos maiores bancos de dados científicos internacionais. Escolhi os termos “Scolecophidia” e “covid-19”, percorrendo, segundo o site, o período compreendido entre 1900 a 2020. Ao longo desses 120 anos, foram publicados somente 65 trabalhos com a serpente e 5.410 com a covid-19, dois publicados em dezembro de 2019 e 5.408, nos últimos cinco meses.

Tenho a impressão de que o mundo nunca passou por uma situação em que tantos cientistas procurassem uma estratégia conjunta para derrotar um inimigo comum, a pandemia. Somente em relação às vacinas, no momento são mais de 100 experimentos em desenvolvimento no mundo, incluindo um brasileiro, sendo elaborado pela Faculdade de Medicina da USP. Nessas circunstâncias, a falseabilidade (geralmente não percebida pelos cientistas) é imprescindível e será crucial para a contenção dessa verdadeira devastação.

Levando em conta a história da centopeia (e valorizando a avó), espero que os cientistas se dediquem exclusivamente aos seus estudos, não dando muita atenção aos teóricos, que podem desviar a sua concentração.

*Carlos Jared é pesquisador sênior do Instituto Butantan, especializado na biologia e história natural de anfíbios e répteis.