A realidade brasileira e a covid-19

 

Favela em São Paulo(Foto: Cecília Bastos e Jorge Maruta – USP Imagens)

Por Carlos Jared, 30.06.2020*

Talvez, o maior desafio no combate à desigualdade seja fazer com que o povo deixe de considerar a pobreza como uma condição natural. Ao longo desses últimos séculos, no meio rural e na periferia das grandes cidades, a pobreza convive intimamente com o brasileiro. Atualmente, agrega um quarto da nossa população, ou seja, 52,5 milhões de pessoas. Por motivos óbvios, a população negra, a herdeira direta do sistema escravocrata, representa 72,7% dos pobres, ou seja, 38,2 milhões de pessoas. Todos concordamos que a ruptura do relacionamento com a pobreza seria um modo eficiente de despertar o brasileiro pobre, fazendo com que ele, ao contrário, produzisse riqueza. Entretanto, a todo momento constatamos, impassíveis, a existência das injustiças sociais bem institucionalizadas, que se ajustam perfeitamente ao nosso cotidiano. A manutenção do status quo, principalmente em uma nação oriunda de uma colônia de cunho estritamente extrativista e escravagista, leva à carência de civilidade e a um excesso de egoísmo. Essa carência pode ser observada em vários setores da sociedade brasileira e é bem possível que seja decorrente da quase inexistência do sentimento de pertencimento: o brasileiro teve pouca participação no jogo da construção do seu próprio país. Viu tudo da arquibancada e foi somente um espectador.

O arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara (1909-1999), figura importante e muito perseguida durante a luta contra o autoritarismo ao longo dos governos militares, era conhecido por se dedicar mais ao próximo do que a si próprio. Certa vez declarou que sempre quando dava comida aos pobres, chamavam-no de santo, mas sempre quando questionava os motivos deles serem pobres, chamavam-no de comunista. 

Martin Ravallion, entretanto, um influente economista australiano, especialista em pobreza mundial, recomenda que se afaste a ideia de que reduzir a desigualdade é coisa de comunistas. Eles também tentaram reduzi-la, mas não foram bem-sucedidos: acreditavam que era necessário, sobretudo, ter uma inabalável “fé”, um tanto religiosa, ainda que dissimulada, no princípio básico do seu sistema, que se resumia na almejada abolição da propriedade privada, na socialização dos meios de produção e no fim da divisão de classes. A força que impulsionava as suas tentativas era o idealismo radical, que, como indica o seu atributo, era intolerante e desdenhava as intransponíveis incoerências da alma humana, exacerbadas por tradições e costumes de séculos, ou mesmo de milênios. 

Uma boa forma de medir o nível de pobreza é recorrer ao IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), que mede o grau de desenvolvimento de um país, estado, cidade, etc em relação à saúde, educação e renda. O Brasil realmente é o país dos grandes contrates. Mesmo nos posicionando na oitava ou na nona maior economia mundial, o IDH brasileiro ocupava, em 2018, a 79ª posição mundial. Entre os países da América do Sul, o nosso IDH empatava com a Colômbia, ficando bem abaixo do Chile, a 42ª posição, da Argentina, a 48ª e do Uruguai, a 57ª. De acordo com a ONU, para o nosso constrangimento, o Brasil é o segundo país do mundo com a maior concentração de renda (distribuição desigual de renda por unidade residencial), atrás somente do Catar. O 1% dos mais ricos no Brasil concentra 28,3% da renda total do país. No Catar, (41ª posição no IDH), essa mesma porcentagem de 1% dos ricos concentra 29% da renda total. É surpreendente constatar que, segundo o IBGE, cerca de 1,8 milhão de famílias brasileiras (2,7% das famílias do país), concentram 19,9% da renda nacional, com rendimentos superiores a R$ 286.200,00 anuais. 

Assim, diante da desigualdade e da encravada pobreza, o efeito das epidemias (ou pandemias), ao longo de toda a nossa história, sempre foi devastador. O caso da covid-19 atual serve, lamentavelmente, como uma forma de realçar as camufladas, mas ininterruptas desigualdades sociais. Trazida da Europa pelas classes abastadas, principalmente através de viagens turísticas, alastrou-se rapidamente, abandonando os bairros privilegiados e acomodando-se nas desprotegidas e superpovoadas áreas mais pobres do país. Invadiu o verdadeiro Brasil, instalando-se nas favelas, casebres, aldeias e palafitas, onde várias pessoas vivem no mesmo cômodo. Há informações de que os índios e ribeirinhos, para receber os R$ 600,00, deslocam-se às cidades próximas e, quando retornam, levam o vírus consigo. O índice de mortalidade no Norte é bem maior: hospitais ou UTIs são inexistentes ou até mesmo desconhecidos pelos pobres.

A situação dos negros pobres é ainda muito mais desanimadora. O Ministério da Saúde tem divulgado dados, facilmente obtidos, sobre a distinção entre os pacientes mortos: através da sua cor. Há uma morte para cada três brasileiros negros hospitalizados por covid-19. Entre os brancos a proporção cai para uma morte em cada 4,4 internações.

Os governos, notadamente os estaduais, estão lutando na linha de frente contra a covid-19. O próximo desafio, já sendo iniciado, será a transição do isolamento para a abertura, na esperada era pós-pandemia. Dentro dessa perspectiva, o Banco Mundial divulgou recentemente dados sobre o estrago que o novo coronavírus fará à economia mundial em 2020. A brasileira, ao invés de crescer 2,2%, como apontava projecão anterior, encolherá 8%, o que deverá causar um aumento bem maior na pobreza.

Em relação à covid-19, o Brasil, entre os todos os países do mundo, em pouco tempo saltou para o segundo lugar, tanto em quantidade de infectados quanto em número de óbitos. Esse fato, sem dúvida, está relacionado, em grande parte, ao desprezo pela Ciência e pelas orientações dos organismos internacionais de Saúde, por parte de autoridades federais. Sem dúvida, essa atitude é reflexo muito mais da pobreza espiritual do que da material.

*Carlos Jared é pesquisador sênior do Instituto Butantan, especializado na biologia e história natural de anfíbios e répteis.