COVID-19: reflexões de um fragilizado cientista

  Carlos Jared, no laboratório de Biologia Estrutural do Instituto Butantan, em 27 de fevereiro. Foto de Isabella Yoshimura.

Por Carlos Jared- 03.05.2020 - Texto recebido em 28 de abril de 2020 – 32º dia desde o caso 1 em São Paulo e no Brasil.

A Ciência, que há bem pouco andava desprezada por uma multidão de antivacinistas e terraplanistas, momentaneamente, diante do abismo pandêmico que despencamos, voltou a ser hipervalorizada. Logo no início, quando ainda existiam, nos Estados Unidos, poucos infectados pelo coronavírus, o próprio Presidente Trump, que é um notório detrator da Ciência, pediu aos poderosos executivos farmacêuticos rapidez na confecção de uma vacina para esse novo vírus: “Por favor, acelerem, acelerem”. A resposta de Holden Thorp, editor da prestigiosa revista científica “Science”, veio rápida: “Faça-nos um favor, Sr. Presidente. Se você quiser algo, comece a tratar a Ciência e seus princípios com o devido respeito”. Diante da pandemia e com a sua inexorável letalidade, o tempo é o grande inimigo. Os especialistas em Saúde Pública vêm fornecendo meios para mitigar o desastre, que ainda pode levar a consequências imprevisíveis no atual mundo globalizado.

É muito evidente que esse vírus escancara a nossa fragilidade. Para uma interpretação fundamentalista religiosa, ele parece ter sido elaborado na oficina de um “hacker maligno.” Em condições propícias, com um simples respirar, o vírus penetra sorrateiramente nas nossas células e, no seu interior, valendo-se dos próprios mecanismos celulares, reproduz-se aos milhares, transformando as células em bombas de vírus que, após serem liberados, vão penetrar rapidamente nas outras células. Dessa forma, espalham-se por todo o nosso corpo, atuando principalmente nos pulmões, levando à morte principalmente os mais velhos, os debilitados e os não resistentes. A “malignidade” desse vírus parece corroborar a interpretação fundamentalista, que não considera o fato de que ele não é alheio ao nosso mundo. Ao contrário, mostra claramente que está muito bem inserido nele, manipulando a nossa fisiologia e morfologia. Ainda, contrariando toda a nossa história evolutiva, impõe-nos o afastamento e o distanciamento social. Como a grande maioria das outras espécies de primatas, somos animais sociais. Assim, não suportamos o isolamento e, possivelmente em função disso, um dos critérios de medição de saúde mental de um indivíduo faz referência ao seu grau de sociabilidade.

Pela minha parte, considero-me um exemplar de Homo sapiens com um bom grau de sociabilidade. Já passei dos sessenta, faço parte do grupo de risco de contaminação pelo vírus e, também, pela consciência da fragilidade da vida. Dessa forma, como uma boa parte da população, estou amedrontado e fragilizado, em “home office” (palavra nova no nosso vocabulário!). Nas pouquíssimas vezes que saio à rua, sempre me utilizo da máscara cirúrgica e das devidas precauções para evitar o contágio. Nesses momentos, com as ruas vazias e com a falta do “outro”, sinto uma profunda melancolia. Mesmo totalmente mergulhado e trabalhando com a Ciência formal, sei que não é atributo dela tratar de sentimentos subjetivos tais como a solidão e a insignificância que situações como essa pandemia causam e devem ter causado ao longo da história da nossa espécie.

A Ciência, ao mesmo tempo que tem o poder de melhorar enormemente a nossa vida material, melhora também a nossa visão de mundo, escancarando a nossa fatal e “inexplicável” fragilidade. Está aí um inimigo microscópico (quase invisível!) mas muito bem constituído, ameaçando despreocupadamente a nossa espécie, orgulhosa de ser a dona do planeta, da sua biodiversidade, da onipotente Tecnologia, da energia atômica, da Internet, etc. Muitas vezes, entretanto, o manto do seu poder cai abruptamente e desvela-se a nossa realidade, frágil e inconstante, percebida por gerações de Homo sapiens em situações catastróficas como a que estamos vivendo nesse momento. Já foi amplamente questionado se “é o homem o que define o astrônomo, ou seja, um minúsculo conjunto de carbono e água, arrastando-se impotentemente em um planeta pequeno e sem importância” como se exprimiu Bertrand Russell, diante da desmesurada imensidão do universo, no seu livro História da Filosofia Ocidental? Nesse momento em que tenho a nítida impressão de que os encantos do mundo se foram, eu também compartilho esse mesmo questionamento.

Quando tudo isso passar, o ser humano deverá voltar à “normalidade”, esquecendo, ou desconsiderando, a sua fragilidade. A Ciência voltará ao seu nicho laboratorial e continuará distante da procura dos encantos do mundo. Ainda assim, a inexorável instabilidade da vida no nosso pequeno planeta continuará nos perseguindo. Para amenizar essa constatação, não há como nos apegarmos somente à Ciência, mesmo com a sua suposta onipotência. Talvez fosse melhor nos ampararmos também nos ensinamentos acumulados ao longo de várias gerações de Homo sapiens que passaram por pandemias e outras tantas catástrofes e, mesmo assim, tiraram proveito. Viram que os procurados encantos do mundo estão onde sempre estiveram: aqui, do nosso lado, na Terra, e não atrás das estrelas. O Homo sapiens possui uma inerente religiosidade que confere a cada indivíduo a capacidade de viver conscientemente e com dignidade. Talvez o caminho mais fácil para nos tornarmos a “espécie divina” seja aceitando a nossa intrínseca ligação com a Natureza, desfrutando ou maldizendo a sua bondade ou a sua malignidade.

Carlos Jared é pesquisador sênior do Instituto Butantan, especializado na biologia e história natural de anfíbios e répteis. Recentemente, publicou um trabalho científico que documentou a sobrevivência de sapos à ingestão de escorpiões inteiros e concluiu pela imunidade de uma espécie de sapo ao veneno do escorpião. Saiba mais no vídeo:

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