Estudo da Lancet mostra que cloroquina é pior que placebo

Por Adriana Matiuzo - 27.05.2020

A cada dia, novos estudos colocam em xeque as expectativas em torno do uso da cloroquina e de sua derivada hidroxicloroquina; mas isto não parece afetar os que transformaram a utilização dessas drogas em mais um item na lista dos temas da polarização política. No dia 18 de maio, o presidente dos EUA, Donald Trump, contou em uma entrevista coletiva, que estaria tomando hidroxicloroquina diariamente, o tratamento, segundo ele, era preventivo e foi suspenso após 15 dias; no Brasil, o presidente Bolsonaro conseguiu, dois dias e dois ministros da Saúde depois, fazer com que a recomendação sobre o uso da droga no SUS se tornasse mais ampla.

Lancet, OMS, França – as notícias dos últimos dez dias de maio

Em 21 de maio, a publicação de um desses estudos na revista médica britânica Lancet levou a Organização Mundial da Saúde a suspender o estudo que coordena com o uso das duas substâncias em 400 hospitais no mundo, para diminuir os riscos para os voluntários envolvidos. O estudo da Lancet é considerado o maior feito até agora por ter envolvido 96 mil pacientes em 671 hospitais, de seis continentes. Os autores são pesquisadores da Universidade de Harvard (EUA) e da University Heart Center (Suiça).

Os 96 mil pacientes avaliados nesse estudo foram divididos em cinco grupos, que receberam prescrições com diferentes combinações. Um dos aspectos do desfecho que foi observado para cada grupo foi a taxa de mortalidade. O grupo que recebeu hidroxicloroquina com antibióticos teve taxa de mortalidade de 23,8%; cloroquina com antibiótico, mortalidade de 22%; só hidroxicloroquina, mortalidade de 18%; só cloroquina, mortalidade de 16,4%. Todos os grupos que receberam os medicamentos tiveram taxas de mortalidade maiores que a do grupo controle, que recebeu placebo. Nele, a taxa foi de 9,3%.

Mesmo o estudo da Lancet, no entanto, aos olhos de alguns cientistas, não produziu dados definitivos. O estudo é do tipo “observacional” (feito com um olhar posterior aos dados de pacientes já tratados, com poder científico menor do que os ensaios clínicos). Ainda são aguardados, por membros da comunidade científica como, por exemplo, o pesquisador do Butantan, Alexander Precioso, os estudos randomizados duplo-cegos, método de ensaio clínico onde nem o examinado, nem o examinador sabem se estão usando medicação ou placebo e que são considerados padrão ouro na medicina.

O primeiro estudo e a luta política

A trajetória dos nomes desses medicamentos na mídia começou na terceira semana de março, quando o médico francês Didier Raoult divulgou que a administração de hidroxicloroquina, combinada com o antibiótico azitromicina, em 36 pacientes com covid-19 internados no Instituto Hospital Universitário Méditerranée Infection (em Marselha) teria feito a carga viral de Sars-CoV-2 deles diminuir ou desaparecer. Em todo o mundo, a notícia sobre o estudo foi apresentada como a solução possível e palpável para o fim da pandemia: uma droga bem conhecida, barata, disponível em grandes quantidades.

Já em 19 de março, um dia antes da publicação do estudo de Raoult no International Journal of Antimicrobial Agents, o presidente Donald Trump falou sobre a droga e iniciou a articulação do argumento de que, se havia um remédio, o isolamento social – e a consequente paralisação da economia norte-americana – deixaria de ser necessário. Em 26 de março, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, passou a defender o uso da droga para a covid-19.

Enxurrada

No Brasil, segundo a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), desde o início da pandemia, foram autorizados 12 estudos com as drogas. Em 27 de maio, havia 204 estudos relacionados à hidroxicloroquina e covid-19 listados no site www.clinicaltrials.gov  – 1 a cada 20 entre os quase 1800 estudos sobre covid registrados na ferramenta. Os resultados desses estudos começaram a chegar às publicações médicas e cientificas mais conceituadas a partir de abril. As conclusões desses ensaios clínicos, em geral feitos com maior rigor, não  correspondiam ao entusiasmo inicial.

Como ficam as pesquisas em andamento

Nesta quarta (27), o Governo Francês anunciou a proibição  do uso da hidroxicloroquina para tratar a covid-19 em seus hospitais. Duas entidades responsáveis pela saúde pública do país se declararam contra a utilização da substância. 

Dois dias antes, a questão da segurança já havia feito com que o diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, anunciasse a suspensão dos testes com a hidroxicloroquina. Ele justificou a “pausa” dizendo que a organização prefere aguardar uma avaliação mais detalhada. Uma revisão deve ser concluída dentro dos próximos 15 dias. A OMS também faz estudos com o remdesivir, lopinavir e ritovanir dentro do chamado Solidarity, um projeto que avalia a segurança e eficácia de diferentes drogas no combate ao coronavírus.  

Antes disso, em 10 de abril, hospitais da Suécia já haviam anunciado a interrupção do uso da cloroquina nos seus pacientes de covid-19, após relatos de graves efeitos colaterais, como taquicardia. Apesar da postura dos suecos, dos franceses, da OMS após o estudo da Lancet, no Brasil, o Ministério da Saúde confirmou que manterá as orientações que ampliam o uso do medicamento. O documento com novas orientações de uso divulgado no dia 20 deixa aberta a possibilidade de uso da medicação na fase inicial da doença e gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Até então, a medicação só podia ser prescrita pelo SUS aos pacientes de covid-19 que estavam hospitalizados e em situação grave. 

A Coalização COVID Brazil, que reúne os hospitais Albert Einstein, HCor, Sírio-Libanês, Beneficência Portuguesa, Oswaldo Cruz (todos hospitais privados de São Paulo), Moinhos de Vento (Rio Grande do Sul), e rede BRICNet (uma rede brasileira colaborativa para a realização de estudos multicêntricos em medicina intensiva) também anunciou que não interromperá seu estudo que já conta com 1.100 pacientes. Um outro estudo, que a Fiocruz conduz em Manaus, com 250 pacientes hospitalizados, também será mantido -- porém a instituição informou que suspendeu o uso da medicação em pacientes leves. Fora do Brasil, também a Medicines and Healthcare Products Regulatory Agency, a agência reguladora britânica, decidiu pela continuidade dos testes com os medicamentos.

 

Alguns dos principais artigos científicos publicados:

 

21 de maio

The Lancet

https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)31180-6/fulltext)

 

11 de maio

Journal of The American Medical Association (Jama)

https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2766117

 

07 de Maio

The New England Journal of Medicine

https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2012410

 

24 de abril

Jama (Journal of American Medical Association)

https://jamanetwork.com/journals/jamanetworkopen/fullarticle/2765499

 

21 de abril

Journal of Clinical Epidemiology

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0895435620303711

 

16 de abril

Site MedRxiv

https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.04.07.20056424v2

 

10 de abril

medRxiv

https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.03.22.20040758v3.full.pdf

 

20 de março

International Journal of Antimicrobial Agents

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0924857920300996?via%3Dihub