June Almeida: a doutora que não terminou o ensino médio e identificou o primeiro coronavírus

June Almeida foi quem descobriu o primeiro coronavírus humano conhecido. Foto: Wikimedia Commons.

Por Marcella Gozzo - 17.04.2020

Ela nasceu June Hart, em 1930, e cresceu em um bairro pobre de Glasgow, na Escócia. Filha de um motorista de ônibus, deixou a escola aos 16 anos; tornou-se então técnica de laboratório e virou expert na nascente microscopia eletrônica. June acabou se doutorando na área, e se dedicou a produzir imagens de vírus – campo em que foi pioneira e lhe trouxe renome internacional. Foi June, uma mulher cientista, quem identificou o primeiro tipo de vírus com extremidades arredondadas, que apareciam como coroas no microscópio eletrônico – que hoje conhecemos e tanto ouvimos falar como "coronavírus".

Uma carreira não usual 

Jane começou como técnica de laboratório em histopatologia na Royal Infirmary, em Glasglow. Em seguida, mudou-se para Londres, onde seguiu na mesma área no Hospital St. Bartholomew. Na capital inglesa, casou-se, em 1954, com o artista venezuelano Enriques Rosalio Almeida – e, assim, surgiu June Almeida. O casal se mudou para o Canadá, onde June foi nomeada técnica de microscopia eletrônica no Ontario Cancer Institute, em Toronto. De acordo com artigo do Oxford Dictionary of National Biography, naquele momento no Hemisfério Norte não havia tantos requisitos formais para se seguir carreira acadêmica. June encontrou espaço para demonstrar suas habilidades e seu nome passou a ser incluído em inúmeras publicações científicas. Debruçada em estruturas virais e acompanhada de um microscópio eletrônico, ela criou um método que melhor visualizava os vírus por meio dos anticorpos.

Em 1964, foi convidada para trabalhar na pós-graduação da Escola Médica do Hospital St. Thomas, em Londres – mesmo local onde o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, foi tratado recentemente com COVID-19. Lá, June se tornou colaboradora na equipe do Dr. David Tyrrell, diretor do Common Cold Research Center – que quer dizer,em tradução livre, centro de pesquisa sobre o resfriado comum. O grupo usava lavagens nasais de voluntários para cultivar e identificar alguns vírus comuns associados ao resfriado.

Uma amostra em particular, que ficou conhecida como B814, chamou a atenção da equipe, pois transmitia os mesmos sintomas de um resfriado comum, mas não era possível cultivar na cultura celular de rotina. Intrigados, os pesquisadores enviaram a amostra para June, que identificou no microscópio as partículas virais. June descreveu o que viu como vírus da influenza, mas com algumas diferenças. Aquele seria o primeiro coronavírus humano conhecido, que foi batizado com esse nome por June, Tyrrell e pelo professor Tony Waterson em razão da “coroa” que aparece na imagem viral.

Influenza mal fotografado

Em entrevista à BBC, o escritor e médico George Winter afirmou que June já tinha visto partículas de coronavírus antes, enquanto investigava a hepatite de ratos e a bronquite infecciosa de galinhas. Ainda assim, seu trabalho foi rejeitado por uma revista científica pois, segundo revisão dos pares, ela teria apenas produzido imagens ruins de partículas do vírus influenza.

Em 1965, a descoberta do B814 foi descrita no British Medical Journal e, dois anos mais tarde, as primeiras fotografias feitas por June foram publicadas no Journal of General Virology.  

Registro do primeiro coronavírus. Foto: Almeida e Tyrrell, 1967.

A pesquisadora viveu um período rico para sua carreira, com publicações consideradas de alta qualidade, recompensadas com um diploma de Doutora em Ciência pela Postgraduate Medical School de Londres. 

Atualmente, a maioria dos artigos e livros de revisão em Virologia contém suas micrografias eletrônicas de vírus. Dentre as muitas realizações de June, está também a primeira visualização do vírus da rubéola. 

Vírus da rubéola. Imagem retirada do paper "Morphological characteristics of rubella virus", publicado na The Lancet em 1967. Por June Almeida, Jennifer M. Best, J. E. Banatvala e A.P. Waterson.

"Qualquer discussão com June, independentemente do tamanho do grupo, não era apenas estimulante, mas era cheia de diversão: ela tinha um senso de humor animado e, às vezes, perverso", diz a psiquiatra Joyce Almeida, filha de June, em artigo publicado no National Center for Biotechnology Information. Joyce destaca que o sucesso da mãe resultou de uma combinação de originalidade do pensamento com a busca frequentemente por explicações simples para o que pareciam problemas complexos.

June Almeida terminou sua carreira no Instituto Wellcome, no Reino Unido, onde trabalhou no desenvolvimento de ensaios de diagnóstico e desenvolvimento de vacinas. Ela se aposentou em 1985 e se afastou da ciência por um tempo para dar aulas de ioga. No final dos anos 80, no entanto, June retornou ao St. Thomas' Hospital como consultora, quando ajudou a tirar novas fotos do vírus HIV. 

A pesquisadora faleceu em dezembro 2007, aos 77 anos, após um ataque cardíaco. Além da filha Joyce, deixou duas netas – e uma trajetória de sucesso internacional cujas habilidades em microscopia eletrônica permitiram não apenas aprimorar as técnicas para diagnóstico de infecções virais, mas também identificar o vírus que se tornaria o mais falado neste início do século XXI.

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