O aumento populacional, o ecologismo e a experimentação animal

Por Carlos Jared* - 03.06.2020

Na Bíblia, em Gênesis, no primeiro dos cinco livros da Torá (ou Pentateuco), em 1:28, Deus abençoa o casal Adão e Eva e lhes ordena: Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a Terra! E realmente essa determinação foi seguida à risca: a população da Terra atualmente está se aproximando dos 8 bilhões de habitantes. Sobe vertiginosamente, e atua fortemente na mudança climática e na desorganização dos ecossistemas. O Homo sapiens, de longe, domina a superfície da Terra e onde quer que se estabeleça, impõe as suas exigências, interferindo desastrosamente no meio ambiente conforme as suas conveniências. O Biólogo Eugene Stoermer, especialista em diatomáceas da Universidade de Michigan, criou, em 1980, o termo Antropoceno, fazendo referência ao grande impacto das atividades humanas na vida da Terra, chegando ao ponto de caracterizar o início de uma nova era na história do planeta. Esse termo foi popularizado pelo químico Paul Crutzen, do Instituto Max Planck, Prêmio Nobel de Química em 1995. O Antropoceno trouxe consigo o que já está sendo tratado como a sexta grande extinção em massa da biodiversidade. As evidências de que vivemos no Antropoceno, ou a nova Era da Humanidade, são facilmente visíveis a cada dia, seja no aquecimento global, na poluição dos oceanos, na mudança da composição atmosférica ou na rápida devastação das grandes florestas, dentre tantos outros acontecimentos nefastos. Das cerca de 1,5 milhão de espécies animais e 300 mil espécies de plantas até o momento conhecidas, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) já avaliou o grau de ameaça de extinção de mais ou menos 106 mil espécies, e calculou em mais de 28 mil as mais ameaçadas.

Durante a década de 1960, concomitantemente ao início da preocupação com o destino do planeta frente à ameaça humana, o mundo vivia o apogeu da Guerra Fria, a constante tensão bélica entre o mundo capitalista e o mundo comunista. As duas superpotências inimigas, os Estados Unidos e a então União Soviética tentavam mostrar ao mundo a superioridade dos seus respectivos sistemas políticos, e a ciência era uma boa vitrine. Essa disputa foi muito acirrada, gerando a conhecida “Corrida Espacial”, ou seja, a disputa do pioneirismo e supremacia na exploração do espaço, visto, na época, como símbolo da superioridade científica e ideológica das nações. A aventura mais largamente coberta pela imprensa mundial nessa corrida espacial foi realizada pelo russo Yuri Gagarin, tornando-se o primeiro ser humano a viajar pelo espaço sideral, em abril de 1961. Com essa aventura, Gagarin foi também o primeiro ser humano a ver o planeta de fora dele. No momento em que o admirou, ele emitiu a delicada frase: A Terra é azul! Uma outra frase icônica, relacionada à maior conquista da corrida espacial, foi proferida por Neil Armstrong, em 1969, sendo o primeiro humano a pisar na Lua. Ao sair da nave, disse: Um pequeno passo para o homem, mas um grande salto para a humanidade. Gagarin, entretanto, oito anos antes, já havia tido a oportunidade de admirar o poético azul da Terra, juntamente com a sua esplêndida singularidade. Essa oportunidade também foi oferecida ao astronauta americano Bill Anders, em 1968. Vendo a Terra pela janela da nave, exclamou: Oh, meu Deus, vejam aquela imagem! É a Terra surgindo. Uau, como é bonita! Se houvesse um biólogo a bordo, ele também poderia se maravilhar, admirando a imagem do lugar onde a vida terráquea se desenvolveu totalmente isolada, no mínimo durante os últimos 3,5 bilhões de anos. Coincidentemente, já em 1859, na primeira edição do “A Origem das Espécies”, Darwin finaliza o livro dizendo: ...é igualmente maravilhoso saber que, enquanto este planeta gira de acordo com a lei fixa da gravidade, infinitas formas [de vida], as mais belas e maravilhosas, tenham iniciado a partir de uma origem muito simples, e mantenham sempre em marcha sua evolução.

O triunfo da Teoria da Evolução, a partir do que ficou conhecido como a “Síntese Moderna”, que agregou a Genética à Teoria da Evolução, realçando as adaptações dos seres vivos aos seus hábitats, juntamente com o revolucionário (e recente) modo de conceber o nosso planeta, proporcionou aos humanos a possibilidade de se desvendar as relações intrínsecas entre a vida e o meio ambiente: ficou evidente que tudo está ligado formando um todo, nesse caso, o “Planeta Terra”. A consequência natural dessa nova abordagem foi o surgimento de movimentos, como o ecologismo e o ambientalismo.

Seguindo esse tema, em momentos de pandemia, como esses da covid-19, que agora estamos penosamente enfrentando, vem à baila um dos temas mais discutidos entre os cientistas e os ecologistas/ambientalistas: o uso de animais em experimentos laboratoriais. Os últimos tempos têm mostrado que existe um ambiente hostil aos cientistas, em que se tenta imputar neles a pecha de impiedosos e despreocupados com a manutenção do meio ambiente. Ativistas ou simpatizantes, na maior parte das vezes totalmente alheios à Ciência, alegam que já existem alternativas laboratoriais, que podem dispensar o uso de animais nos experimentos. Ainda não ficou claro aos ativistas que todas as instituições de pesquisa, por exigência legal, necessitam contar com comitês de ética. Todos os experimentos devem ser submetidos a esses comitês. São eles que analisam os projetos científicos, antes de serem executados, avaliando a possível dispensa dos animais, o que muitas vezes pode acontecer. Para manter a pluralidade e gerar o aperfeiçoamento das opiniões, os membros desses comitês pertencem a diversos setores da sociedade, além, logicamente, daqueles que realmente trabalham na Ciência. Na atualidade, já existem muitas alternativas para dispensar o uso de animais nos experimentos científicos. Segundo a opinião generalizada dos especialistas em experimentação animal, no entanto, prescindir totalmente de animais, parece ser uma hipótese ainda improvável, notadamente em testes de vacinas, com mais razão ainda, em situações de urgência pandêmica.

O macaco Rhesus (Macaca mulatta), um cercopitecídeo, ou seja, um macaco do Velho Mundo, é largamente utilizado em experimentos biomédicos. Vem contribuindo para o desenvolvimento de tratamentos e de vacinas, como por exemplo, a da raiva, poliomielite, varíola e HIV e, atualmente, da covid-19. Como animal experimental, exibe uma série de vantagens, tanto em nível de genoma, já que é muito próximo ao do ser humano, quanto em relação à disponibilidade e viabilidade de captura, sendo, possivelmente, a espécie de primata mais cosmopolita do mundo. Habita uma boa parte da Ásia e, ao contrário dos grandes símios (os hominídeos), que estão em franca extinção, essa espécie é considerada praga e já se tornou exótica, com distribuição até em ilhas dos Estados Unidos, onde foi levada com fins cinematográficos. Na Índia, com a destruição dos seus hábitats, os bandos estão se deslocando para as cidades, causando distúrbios e, às vezes, atacando pessoas. O Instituto Butantan, desde 1929, conta com uma comunidade de Rhesus, com alguns indivíduos expostos ao público. Esses animais chegaram à nossa instituição, trazidos da Índia, com a finalidade de serem utilizados em estudos sobre a febre amarela.

Com a pandemia atual, vários testes têm sido feitos com vacinas para o novo coronavírus, com bom grau de sucesso, usando esse primata em diversas instituições científicas mundiais. É o caso, por exemplo, da Universidade de Harvard, por meio do Centro Médico Beth Israel Deaconess, em Boston. Na China, por outro lado, a empresa Sinovac Biotech vem desenvolvendo uma vacina. Foi vacinado um grupo de oito macacos: três semanas depois inseriram o vírus em seus pulmões e nenhum deles desenvolveu a doença.

As principais raízes da destruição ambiental e da biodiversidade são a exploração desenfreada dos recursos naturais, a emissão de gases e a geração de resíduos poluentes, o desmatamento de grandes áreas florestais etc. A pobreza humana, tanto a material quanto a espiritual, também é um fator bem preponderante nesse contexto. Seria necessário atuar urgentemente na mudança de rumo da humanidade. Seguimos fielmente as instruções bíblicas, sendo férteis e nos multiplicando. Subjugamos a Terra e, como efeito direto disso, amplificamos consideravelmente o número de pobres e miseráveis, que são os mais susceptíveis de serem infectados no caso de pandemias, como agora a da covid-19.

Trilhando esse caminho, é bem possível que, diferentemente de Yuri Gagarin, os astronautas de gerações vindouras, olhando pela janela de suas naves, exclamem com grande espanto: Meu Deus, a Terra é marrom!

*Carlos Jared é pesquisador sênior do Instituto Butantan, especializado na biologia e história natural de anfíbios e répteis.

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