O desafio dos gestores: quantos leitos de UTI a pandemia requer?

Por Adriana Matiuzo Santana - 20.05.2020

Antes da pandemia, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendava como suficiente a existência de 10 a 30 leitos de UTI para cada 100 mil habitantes. Na pandemia, no entanto, alcançar essa disponibilidade de leitos, por si só, pode não ser suficiente para o atendimento de todos. Um fator diferente desafia agora os gestores da saúde: a baixa rotatividade na ocupação dos leitos.  A recuperação da Covid-19 leva em torno de duas semanas, o que faz com que cada leito possa ser usado, em média, por dois pacientes em um mês. Manaus (AM), por exemplo, tem 11 leitos para cada 100 mil habitantes (dentro dos parâmetros da OMS portanto), mas viveu uma crise nos sistemas médico e funerário com seus 291 leitos de UTI, públicos e privados. São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Fortaleza (CE), que lideram o ranking de casos e óbitos da doença, não tinham mais do que 10 leitos de UTI no SUS para cada 10 mil habitantes, de acordo com levantamento do IBGE, quando a epidemia começou.

Fila única para UTI

 Segundos dados da Confederação Nacional de Saúde e da Federação Brasileira de Hospitais, de 460 mil leitos no Brasil, 50 mil eram de UTI à época do levantamento. Metade destes leitos de UTI estão na rede privada, disponíveis para os 25% da população que pagam planos de saúde. A outra metade é pública, e atende três quartos dos brasileiros. O médico Gonzalo Vecina, ex-diretor da Anvisa, ex-secretário do Ministério da Saúde e que esteve à frente do Hospital Sírio Libanês, defende a implantação de da fila única para UTIs, estejam elas na rede pública ou privada. Antes da pandemia, informou Vecina na mídia tradicional, a rede particular tinha 35 leitos para cada 100 mil habitantes, enquanto o SUS tinha apenas 7 leitos por 100 mil habitantes. A fila única foi adotada em diversos países como França, Itália e Austrália. No caso da Espanha, o governo chegou a estatizar provisoriamente os leitos privados durante a pandemia.

Vecina destaca que as UTIs privadas estariam com ociosidade em pelo menos 30% dos leitos, podendo chegar a 40%. A inclusão da rede particular no atendimento do SUS, com as devidas indenizações, é ainda mais necessária porque a pandemia pode levar o país para uma grave crise humanitária. Ainda de acordo com Vecina, os preços devem ser negociados e, somente em última instância, o judiciário pode ser acionado para uma definição de valores.

A capital paulista tem hoje 12,2 milhões de habitantes, com 1.226 leitos de UTI pelo SUS e um total de 2.278 pela rede privada. Em maio, a Prefeitura de São Paulo anunciou um protocolo para poder utilizar leitos ociosos das UTIs em sete hospitais privados. A medida está prevista na Constituição, que permite aos secretários de saúde requisitar leitos particulares durante pandemias, desde que haja uma posterior indenização ao serviço. O próprio Ministério chegou a declarar que vai alugar leitos na rede privada, caso necessite.

A prefeitura paulistana anunciou que negociou e que contratará 100 novos leitos da rede privada, pagando R$ 2.100 por diária. Fora da pandemia, antes de ocorrer uma inflação nos valores, a diária de uma UTI custava em torno de R$ 1.600. Hoje, organizações sociais e entidades privadas que administram hospitais do SUS estão cobrando de R$ 2.800 a R$ 3.000 por um leito de UTI. Além dos equipamentos tecnológicos, como os respiradores, os leitos de UTI são caros porque também exigem uma equipe multidisciplinar, com médicos experientes, profissionais de enfermagem e de reabilitação (fisioterapeutas, fonoaudiólogos e nutricionistas que ajudam o paciente a recuperar suas habilidades básicas de respiração, fala e alimentação, por exemplo).

Em 14 de maio, o secretário da Saúde do Município de São Paulo, Edson Aparecido, disse ter sido informado pela rede privada de que nos 1.312 leitos de UTIs particulares da cidade de São Paulo, destinados exclusivamente ao atendimento de covid-19, a taxa de ocupação havia chegado a 95%. No Rio de Janeiro (RJ), em Belém (PA) e em Manaus (AM), no entanto, a possibilidade de buscar na rede privada os leitos que faltam ao SUS praticamente já não existe. Um levantamento mostrou que todos os dias uma média de oito pacientes têm embarcado em jatinhos com UTI de Belém rumo a outras capitais, em especial São Paulo e Goiânia, em busca de atendimento médico.  

No Rio, o último levantamento divulgado pela Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) aponta que a rede particular de saúde ultrapassou 90% de ocupação. O artigo “Dificuldade de Acesso e Estimativas de Leitos Públicos para Unidades de Terapia Intensiva no Estado do Rio de Janeiro” apontou a necessidade de aumentar em pelo menos 122% o número de leitos na cidade do Rio para garantir a estabilidade do sistema. Os últimos levantamentos apontavam uma “fila” de mil pessoas esperando por vaga em UTI e a taxa de ocupação chega a 98%. Uma projeção feita pelo médico Graccho Alvim, da

A Associação de Hospitais do Estado do Rio de Janeiro estima que todos os leitos de UTI da rede privada estarão ocupados ainda em maio. Uma esperança, no entanto, são os três mil leitos bloqueados por falta de equipamentos, profissionais, ajustes ou obras, apontados em um mapeamento feito nas redes municipal, estadual e federal do Rio. Em Fortaleza, os últimos balanços divulgados mostram que 17 hospitais, tanto públicos, quanto privados, atingiram 100% de lotação em suas UTIs. A cidade é a terceira no ranking de óbitos do país, atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro. Sem leitos de UTI por períodos prolongados, o isolamento social é a única forma de reduzir as mortes pelo coronavírus. Desde que a pandemia teve início na China, a comunidade médica tem batido na tecla da necessidade do isolamento social, cujo objetivo principal é evitar que muita gente adoeça de uma só vez, causando o colapso do sistema de saúde que já começamos a presenciar. Segundo projeções de uma ferramenta da Universidade Federal de Minas Gerais, a maioria dos estados brasileiros deve atingir, neste mês, a ocupação máxima dos leitos de UTI no SUS. Até o fim de junho, porém, a maioria dos estados também deverá ficar com os leitos particulares lotados.

 

Cidades sem leitos de UTI

 

Outra preocupação é que dos 5.570 municípios brasileiros, apenas 9,8% têm leitos de UTI, o que, na prática, significa que nove a cada 10 cidades brasileiras não têm nenhum leito de tratamento intensivo, segundo os dados do IBGE. Agora a conta, que já era bem ruim, soma infartados, pessoas em tratamento de câncer e todos que precisam de UTI ao número crescente de pacientes graves da Covid-19.

 

Protocolos de Triagem

 

Enquanto gestores públicos correm contra o tempo para aumentar o número de leitos de UTI disponíveis Brasil adentro, uma força tarefa composta por várias associações médicas (Associação Brasileira de Medicina Intensiva, Associação Brasileira de Medicina de Emergência, Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e a Academia Nacional de Cuidados Paliativos) achou prudente criar um guia com recomendações sobre como lidar em uma situações-limite, em que haja necessidade de triar os pacientes, isso para contextos de grandes catástrofes ou epidemias: https://sbgg.org.br/recomendacoes-da-amib-associacao-de-medicina-intensiva-brasileira-abramede-associacao-brasileira-de-medicina-de-emergencia-sbgg-sociedade-brasileira-de-geriatria-e-gerontologia-e-ancp-academia/.

O modelo de triagem, que só será aplicado caso a possibilidades de transferências estejam realmente esgotadas, concentra seus critérios em tentar salvar o maior número de pessoas possível e de tentar identificar quem tem mais chances de sobreviver. Antes de ser divulgado, o guia passou pela avaliação de profissionais de direito e da área da saúde, a ideia era levar em consideração as particularidades e os valores dos brasileiros. O primeiro critério considera o nível de comprometimento dos órgãos, o segundo aborda a identificação de doenças crônicas pré-existentes que estejam em estado avançado e, por fim, o terceiro critério avalia a capacidade física do organismo, que está diretamente relacionada com as condições de combater uma doença e de tolerar tratamentos agressivos oferecidos em UTIs. Os itens são pontuados e quanto maior a indicação de que o paciente vai sobreviver, maior será dada prioridade a ele na hora de receber recursos considerados escassos como os leitos de UTI e o apoio com respiradores.

Os pacientes que não forem selecionados para o leito de UTI devem obrigatoriamente receber todos os outros tratamentos disponíveis, como oxigênio e medicamentos em geral, inclusive para tratar os sintomas. No caso de empate, quem toma a decisão da escolha são os profissionais mais experientes, que devem ser sempre acionados. O apoio das equipes de Cuidados Paliativos também é recomendado nestes casos.