O desenho de um estudo para descobrir quantos paulistas o coronavírus já infectou

Processamento de sangueFoto: Cecília Bastos - USP Imagens

Por Mônica Teixeira, 07.07.2020

O mês de julho se instalou, e com ele a existência do novo coronavírus em nossas vidas completou seus primeiros 180 dias: seis meses inteiros, desde que chegou à mídia a notícia da epidemia em Wuhan. Em São Paulo, o primeiro caso registrado foi em 28 de fevereiro. A grande São Paulo foi a primeira megalópole situada entre os países de baixa e média renda a ser atingida pela covid-19. Agora, começa a retomar certas atividades econômicas.

Do ponto de vista de sua transmissão, que trajetória o SARS-CoV-2 vem desenhando em São Paulo? Uma das formas de responder a esta pergunta é a execução de inquéritos sorológicos. Esta pequena reportagem é sobre um deles.

O inquérito soroepidemiológico do Butantan

Sempre que uma palavra envolve o prefixo soro-, é certo que a referência é à substâncias a serem medidas em nosso sangue. Por exemplo, os testes sorológicos rápidos para SARS-CoV-2 são aqueles que procuram anticorpos específicos para o coronavírus em uma amostra de sangue retirada da ponta dos dedos ou de um vaso sanguíneo. Encontrados anticorpos específicos, é sinal de que o dono ou a dona daquela amostra potencialmente foi infectado pelo vírus – já que foram produzidos os anticorpos. Um inquérito soroepidemiológico é a busca de informações sobre a trajetória do vírus e da epidemia, a partir de amostras de sangue.

O nome completo do levantamento é Estudo Soroepidemiológico da Infecção pelo SARS-CoV-2 em Subgrupos Populacionais no Estado de São Paulo e seu organizador e coordenador é Alexander Precioso, diretor do Centro de Segurança Clínica e Gestão de Risco do Instituto. Os dados coletados em estudos como esse são analisados por meio de ferramentas estatísticas, e por isso os resultados poderão ser extrapolados para a população em geral do Estado. A equipe que Precioso reuniu inclui matemáticos, epidemiologistas, especialistas em análises laboratoriais de testes sorológicos, médicos, pesquisadores da USP, Unesp e Santa Casa, e profissionais da saúde pública no governo do Estado e fora dele.

O desenho do estudo

De acordo com o protocolo apresentado a comitês de ética para pesquisa que envolvem seres humanos, o objetivo principal do estudo é obter informações sobre a magnitude da infecção na população do Estado de São Paulo. Para isso, o estudo pretende realizar testes sorológicos em 18.901 pessoas. Os pesquisadores buscarão voluntários em oito diferentes subgrupos populacionais. Os maiores subgrupos pesquisados serão os refugiados que vivem no município de São Paulo, pessoas de mais de 65 anos e seus contatos, e os contatos dos profissionais que trabalham no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e tiveram covid-19. Estes grupos inteiram 14 mil pessoas. Os outros subgrupos englobam mulheres privadas de liberdade e funcionários do Centro de Progressão Penitenciário feminino do Butantan, presos internados no Centro Hospitalar do Sistema Penitenciário, doadores de sangue no Hemocentro de São Paulo, os idosos que vivem em instituições de longa permanência de Botucatu e pessoas que tiveram contato com crianças e adolescentes atendidos com coronavírus no Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).

“Para a escolha dessas populações, levamos em conta a possibilidade de alcançar resultados representativos de diferentes grupos populacionais e obtê-los com rapidez. Temos populações de diferentes faixas etárias, contactantes de diversas origens, e populações específicas de coortes já estruturadas, como a dos idosos”, explica Precioso. A expectativa é de que o estudo complete a coleta de amostras em 60 dias. Os testes começaram a ser realizados na última semana de junho.

Os testes do estudo

O teste sorológico utilizado no estudo detecta os dois tipos principais de anticorpos, mas não os distingue. Dessa forma, o resultado indicará se o participante foi ou não infectado pelo SARS-CoV-2. Os kits diagnósticos foram comprados da empresa WONDFO, coreana. O estudo prevê a coleta de sangue de vasos sanguíneos, pois o teste será realizado no soro obtido do sangue. Esse procedimento trará mais precisão aos resultados.

Além do teste rápido, haverá também a aplicação do teste conhecido como RT-PCR, que procura por trechos do material genético do coronavírus não no sangue ou no soro, mas em amostras tiradas do nariz e da garganta dos voluntários que apresentarem sintomas no momento do teste sorológico. Os participantes identificados com testes positivos para covid-19 serão orientados sobre o que fazer para acompanhamento e tratamento nos serviços de saúde.

As informações que o estudo trará

O protocolo estipula aonde o inquérito pretende chegar. Os objetivos gerais são estimar, em diferentes grupos populacionais do município de São Paulo e em idosos e idosas de instituições de longa permanência de Botucatu, quantas pessoas tiveram contato com o SARS-CoV-2; identificar a presença de infecção no momento do estudo, com o uso do PCR em participantes com sintomas; e usar as informações para contribuir com modelos matemáticos que projetam a trajetória da epidemia no futuro próximo. As informações geradas devem ajudar na discussão sobre distanciamento social e outras políticas de saúde.

“Como o estudo está sendo feito já no contexto do distanciamento social, ele trará o retrato dos efeitos dessa política. Além disso, os resultados poderão ajudar a definir as prioridades para a imunização, quando houver vacinas já aprovadas”, completa Precioso.

Confira a entrevista completa de Alexander Precioso, com detalhamento sobre a pesquisa, no Canal Butantan no Youtube: https://youtu.be/pyRw5qoWb6U.