O Ensino de ciências, as especializações e a COVID-19

   O pesquisador Carlos Jared em sua casa.

Por Carlos Jared* - 20.05.2020

Muitas vezes me lembro de uma expedição científica para coleta de animais em meados da década de 1980, em uma cidade do sul do Piauí.  Para nos guiar pela região, mostrando-nos os melhores lugares para a nossa prospecção zoológica, contratamos o Seu Damião, um típico caatingueiro. Era pedreiro de profissão e nunca tinha saído da área: conhecia, no máximo, algumas cidades circunvizinhas. Logo após a janta, onde sempre me impressionava o fato de se utilizar de rapadura moída por cima do feijão, saíamos para as coletas noturnas. Numa dessas ocasiões, passando perto de uma casa bem humilde, ouvimos o choro de uma criança, prontamente identificada pelo Seu Damião como o seu neto. Havia nascido recentemente e, quando perguntamos qual era o nome do menino, informou-nos que ainda não tinha sido “nomeado” – não se sabia se ia “vingar”! Através de uma publicação da área antropológica, consultada bem depois, fiquei sabendo que existia mau agouro, ou um verdadeiro tabu, em se repetir o nome de uma criança, caso tivesse sido usado antes por outra, já falecida. Era, portanto, necessário esperar um tempo, suficiente para garantir a sobrevivência do neonato, não “queimando” um nome já bem escolhido pela família. Mais interessante ainda foi o que o velho Damião nos informou acerca do uso de teia de aranha no umbigo da criança, segundo ele (e seguindo a tradição local), um excelente remédio, usado para acelerar a cicatrização. Os grotões nordestinos, termo muitas vezes tomado como preconceituoso, mas muito utilizado inclusive pelos estudiosos do Brasil, ainda que tenham passado por um período de mudanças positivas nos últimos anos, continuam albergando uma boa parte da população que vive na linha da pobreza. O acesso ao conhecimento e aos cuidados básicos essenciais “modernos” é muitíssimo restrito, fazendo com que os curandeiros, ainda hoje muito atuantes, desempenhem um importante papel na cultura e no cotidiano da população. Em relação às cobras, animais mundialmente associados ao Instituto Butantan, o folclore nordestino continua muito rico, convivendo com a desinformação, que é ainda mais rica. Recentemente foi amplamente divulgada a morte de um cidadão, que foi picado por uma cobra coral verdadeira (possivelmente Micrurus ibiboboca). Andando pela rua, sob a vista de vários conterrâneos de Caetité, cidade do centro sul da Bahia, esse cidadão “se amostrava”, segurando a cobra pelo meio do corpo e deixando a cabeça livre para uma possível injeção do seu veneno, altamente letal. O companheiro que ia ao seu lado, entretanto, alertava-o constantemente para que tivesse muito cuidado com o cabo (ou a cauda!) da cobra. Existe em todo o Brasil, mais particularmente no Nordeste, uma arraigada crendice de que a cobra-coral “pica” com a cauda. Biologicamente falando, o que ocorre é que, quando se sente agredida, é comum que levante e enrole a cauda e, com movimentos bem evidentes (conhecidos cientificamente como ‘engodo caudal’), tente desviar o foco do agressor da cabeça para o seu “cabo”, deixando-a livre para o ataque. O fato é que a cobra-coral, no caso de Caitité, ficou bem à vontade na mão do cidadão, picando-o (ou melhor, mordendo-o, no caso das cobras-corais), levando o pobre do homem à morte em pouco tempo. O acontecimento foi filmado e viralizou na internet, sendo assistido por milhares de pessoas. A “tradução” do termo “cabo”, significando rabo, foi feita por Miguel Trefaut Rodrigues, Professor Titular do Departamento de Zoologia da USP, que é um grande conhecedor da fauna herpetológica e dos costumes nordestinos.

Esse episódio é relevante para se destacar a grande deficiência educacional no nosso país. Já houve várias tentativas de melhorar a qualidade da educação básica brasileira, tão defasada, inclusive em relação à dos nossos vizinhos sul-americanos, como a Argentina, o Uruguai ou o Chile. Em relação especificamente ao ensino de Ciências, o Prof. Isaías Raw, figura de destaque na Ciência brasileira e um dos ex-diretores do Instituto Butantan, é um dos pioneiros da divulgação científica, particularmente para o público infanto-juvenil. Durante a década de 1960, através da implementação da FUNBEC, elaborou kits de experimentos, de modo a fazer com que os jovens vivenciassem diretamente as experiências científicas. Várias entidades científicas brasileiras, incluindo o próprio Butantan, vêm atuando eficientemente nessa área, mas parece que ainda há muito o que se fazer para tornar a Ciência e a sua metodologia acessível ao grande público. A “Declaração sobre a Ciência e o Uso do Conhecimento Científico”, por exemplo, editada pela UNESCO, em 2003, ressalta o papel dos jornalistas e de todos os que tratam do aumento da conscientização do público, promovendo a cultura científica e tornando-a acessível e de fácil compreensão.

Na situação que chegamos, com toda a nossa carência educacional, é de se esperar que o brasileiro, de uma maneira geral (e não somente os habitantes dos grotões), estejam muito distanciados da Ciência. Particularmente nesse tempo de pandemia, tem sido muito frequente a defesa do bom senso, incitando todas as esferas governamentais, com o seu supremo objetivo de proteger a vida dos brasileiros, a moldarem as suas decisões, de forma técnica, seguindo os experimentos científicos. Entretanto, muitos dos nossos governantes, baseados em intuições ou em objetivos não muito esclarecidos, batem de frente com as recomendações dos organismos nacionais e internacionais, responsáveis pelo gerenciamento da Covid-19. Compreende-se perfeitamente que o nordestino (com mais ênfase no sertanejo), ou o nortista (em especial, os índios e os ribeirinhos), estejam flagrantemente distantes do acesso ao conhecimento formal, baseado na tradição ocidental. É difícil de entender, entretanto, a postura de muitos políticos que influenciam a já muito sofrida população despossuída, aprofundando a sua fragilidade em relação à Saúde Pública. Existe muita verdade no que o Governador de Goiás disse recentemente, referindo-se ao isolamento social e criticando a orientação desses políticos: na política e na vida, a ignorância não é uma virtude.

No meu caso particular, ao longo de 15 anos, mais precisamente até 1987, durante os meus plantões de sábados e domingos, ocupei a função de “serpentarista” no Instituto Butantan, fazendo extrações de veneno e dando instruções básicas aos turistas sobre a biologia e envenenamento em relação às serpentes e aracnídeos. Tinha um grande cuidado de não atritar com os nossos visitantes brasileiros, que vinham já “doutrinados” pelo folclore e pelas crendices em relação a esses animais. Desinformações como, por exemplo, as relativas ao hipnotismo que a serpente exerce sobre as suas vítimas, ou sobre o comportamento de mamar nas parturientes, colocando, concomitantemente, o rabo na boca da criança para distraí-la e não acordar a mãe, eram sempre tratadas de forma muito delicada. Ao mesmo tempo que demonstrava um grande respeito pelo folclore brasileiro, tentava sugerir que “poderia” existir, por trás do meu trabalho, um robusto corpo de conhecimento, duramente conquistado pelo ser humano ao longo dos últimos séculos. Convidava, dessa forma, o visitante a olhar, com especial respeito, as especialidades desenvolvidas pelos vários profissionais da Ciência.

Voltando ao tema da Covid-19, nas circunstâncias atuais brasileiras, é inaceitável que políticos totalmente alheios às áreas médicas queiram (ou tentem) impor diretrizes, de forma a lidar com a pandemia e com vidas humanas. É realmente uma atitude atentatória que, no mínimo, afronta todo o já citado corpo de conhecimento duramente adquirido durante os vários anos de especialização de cada profissional. Entretanto, como afirmou o filósofo inglês Thomas Hobbes, no seu Leviatã, já em 1651, o desejo de poder é cego e é imprescindível para a conquista daquilo que o ser humano chama felicidade. Hobbes afirma que há no homem em geral, (mas, eu acrescentaria, principalmente naquele pouco esclarecido, ou resolvido) um incessante desejo de poder, que só vai terminar com a morte.

Em contraste com esse incessante desejo de poder, volto a me lembrar do Seu Damião, um brasileiro entre outros vários milhões que vivem na linha da pobreza. Tudo o que mais queria era que o neto sobrevivesse e, assim, pudesse usar o nome tão bem escolhido pela filha...

*Carlos Jared é pesquisador sênior do Instituto Butantan, especializado na biologia e história natural de anfíbios e répteis.

Leia mais:

A COVID, a morte e suas implicações

COVID-19: reflexões de um fragilizado cientista

Resposta imune especial induzida por vacina viva é estudada para uso na pandemia