O extremismo político e o avanço da Covid-19 no Brasil

Por Carlos Jared* - 27.05.2020

Grosso modo e de forma objetiva, poder-se-ia afirmar que a ideologia de esquerda se propõe, através de meios políticos progressistas (ou revolucionários), instaurar a justiça social e a igualdade entre os seres humanos. Por outro lado, a ideologia de direita pretende, por meios conservadores (ou liberais), aprimorar o mundo através da manutenção da tradição e dos valores nacionais e religiosos. Fica em aberto a forma de se conceber o que seja “revolucionário” e “liberal.” Na história recente da humanidade, essas duas ideologias, ao invés de se complementarem, digladiaram-se a ponto de por em cheque o futuro do planeta através da corrida armamentista, voltada ao poderio atômico.

Parece muito claro que essas ideologias, em terras brasileiras, moldaram-se às nossas condições de vida e à nossa maneira de ser. Entre nós, os sul-americanos, acrescenta-se ainda a tradição caudilhista. De uma maneira geral, entretanto, é um fato muito aceito que uma grande parte da população brasileira tradicionalmente se identifica com os valores direitistas, muito exaltados durante as décadas de 1960 e de 1970, os anos bicudos do militarismo. O Brasil, nessa época, ainda era um país agrário e o “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, dentre outros tantos monumentos artísticos, mostrava a dinâmica de funcionamento de uma boa parte do país, particularmente do Nordeste, liderado pelos coronéis, os pequenos caudilhos regionais. A fome e a miséria extremas, convivendo com a riqueza das grandes propriedades rurais, criava o ambiente propício para o advento do antagonismo político entre a direita e a esquerda, que permeava agressivamente a vida dos brasileiros. Os esquerdistas, de uma maneira geral, eram (e ainda são) taxados de comunistas ou terroristas, e os direitistas, chamados de reacionários, capitalistas e alinhados ao imperialismo norte americano.

Ainda que a grande contenda entre a esquerda e a direita tenha surgido durante a Revolução Francesa (iniciada em 1789), permeou por todo o século XIX e XX, inflamando-se a partir do final da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Até 1989, portanto durante 44 anos, ou mais especificamente até a Queda do Muro de Berlim, o mundo europeu foi basicamente dividido entre os países ocidentais, dominados pelo capitalismo, apoiados principalmente pelos Estados Unidos, e os países orientais, sob a domínio comunista, mantido pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Entretanto, durante esse meio tempo, muitos dos países da Europa Ocidental adotaram, como forma de governo, a socialdemocracia e, dessa forma, alguns pilares conceituais da esquerda se mesclaram aos da direita e, ainda que com interpretações conflituosas, criaram uma experiência política inédita. Os países da Europa Oriental, entretanto, foram mantidos fiéis aos valores da esquerda, com economias estagnadas e distantes do mundo ocidental. A Queda do Muro de Berlim foi o estopim para o fim da divisão mundial nos dois grandes blocos ideológicos. A União Soviética se extinguiu e o Mundo foi gradativamente se recompondo, agora com uma nova distribuição de forças.

Eu, pela minha parte, durante as décadas de 1960 e 1970 era “apenas um rapaz latino-americano...”, como cantava o meu contemporâneo e já falecido Belchior. A minha juventude coincidiu com o maniqueísmo tupiniquim, ou, plagiando Jean-Paul Sartre, escolhendo entre “o Diabo e o bom Deus.” Diante dos dois extremos e diante da minha índole, escolhi o Diabo (segundo a interpretação dos conservadores.) Sempre tive uma grande identidade com o povo nordestino e não conseguia aceitar a sua submissão à pobreza, profundamente incrustrada na sua maravilhosa cultura. Não me conformava com “a parte que te cabe desse latifúndio...”, onde o lavrador, com o seu corpo magro e com a pele curtida pelo sol do sertão, seria sepultado. Nessa época, como outros tantos jovens idealistas, quando enxerguei claramente as injustiças sociais e as sólidas muralhas separando os ricos dos pobres, senti que deveria contribuir para a melhora do nosso “Povo Brasileiro.” Era, então, um grande admirador de Darcy Ribeiro, que defendia a institucionalização da nossa original Civilização Brasileira, fenômeno antropológico tropical, mestiço e humanista. Tive, portanto, a minha experiência marxista, tendo, inclusive, militado no antigo PCB (mais conhecido como “Partidão”). Inegavelmente foi um tempo de muito aprendizado, que moldou a minha formação como pessoa, exerceu grande influência nos meus valores e, consequentemente, na minha vida em geral.

O tempo passou e, com o amadurecimento, resultante do convívio com a realidade humana, fui gradativamente abandonando os conflitos ideológicos. Já havia adquirido estrutura suficiente para suportar o contato com a política real, exatamente do jeito que ela é, com os seus abismos e a sua voracidade pelo poder. Existe uma frase, cujo autor até hoje não consegui identificar, que diz que quem não foi comunista na juventude não tem coração e quem continua comunista na velhice, não tem juízo! Isso ilustra, de forma até um tanto caricata, o comportamento dos jovens integrantes dos Centros Acadêmicos das nossas universidades, em particular os das Faculdades de Ciências Humanas, bem como o comportamento dos velhos líderes dos países populistas ou ditatoriais. A meu ver, os limites impostos pela realidade do dia a dia têm o inexorável poder de destruir qualquer tipo de extremismo, principalmente os políticos. Hoje faço um grande esforço para ter uma visão isenta e vejo a magnífica contribuição que Marx deu ao conhecimento humano, no meio, logicamente, de vários outros grandes pensadores. Dessa forma, posso me considerar também, ao menos culturalmente, um marxista (claramente não leninista!). Por outro lado, tenho tentado, indo ocasionalmente em sentido contrário à atual ideologia da intelectualidade brasileira, enxergar o lado bom das várias tendências políticas, fugindo dos extremismos e mantendo a prudência e a possibilidade de convívio com outras ideias, muitas vezes antagônicas às minhas. Hoje, longe do despotismo ideológico, acredita-se que, em uma análise isenta, o próprio Marx não se consideraria marxista, no sentido utilizado pela maior parte dos seus seguidores e divulgadores, e nem Darwin se consideraria darwinista, também no sentido dos seus seguidores, que insistem na inócua briga entre o conhecimento científico e o religioso, persistentemente instigada pelo famoso Prof. Richard Dawkins, da Universidade de Oxford.

Considerando a atual situação brasileira, torço para que as últimas eleições, trágicas e frustrantes, deem uma contribuição ao conhecimento dos eleitores. Espero que eles desenvolvam, ao menos em relação à esfera política, um certo grau de individualismo. É sumamente importante fugir da eterna manipulação de vários políticos inescrupulosos, tanto os de “direita” quanto os de “esquerda”, que objetivam somente o voto, falando exatamente o que o povo quer ouvir. Poderiam ser mais bem classificados como populistas, ou oportunistas (e não esquerdistas ou direitistas), pois, menosprezando o lado positivo dessas ideologias, eles se apoderam do voto da grande massa dos despolitizados e desesperançados, que são os ávidos seguidores das tendências autoritárias.

Atualmente, diante da grande tensão causada pela pandemia, todos os esforços deveriam estar reunidos na área de Saúde Pública. No entanto, em função da concomitante turbulência política, o noticiário sobre as atividades de governantes polêmicos toma uma boa parte do espaço, desviando a atenção do brasileiro para fora da Covid-19. No mundo em geral, particularmente nos países da Europa, bem amadurecidos em relação à direita e à esquerda, e com grande conscientização dos perigos epidemiológicos, o foco está totalmente centrado na contenção das mortes. Assim, na Alemanha, por exemplo, sob a liderança da fabulosa Angela Merkel, felizmente o distanciamento social já está sendo afrouxado, fazendo com que a sociedade volte, gradativamente, à normalidade.

Portanto, é de se lamentar a atual conjuntura político-epidemiológica brasileira. Particularmente em São Paulo, o estado com as melhores condições médicas do país, a situação está chegando no limite. Em uma de suas coletivas de imprensa, o atual coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus do Estado de São Paulo, o nosso diretor do Instituto Butantan, o Prof. Dimas Tadeu Covas, declarou, com a voz um tanto embargada, que, pelo menos até aquele momento, estávamos perdendo a batalha para o vírus. O fato deve-se, basicamente, ao alto índice de pessoas circulando e, consequentemente, aumentando a possibilidade de infectar o próximo e manter constante a escalada da pandemia. Eu diria, inclusive, que a batalha está sendo perdida também com a ajuda maciça do eficiente trabalho do extremismo político, que continua atuante e incentivando a aproximação social. Vários líderes e seus seguidores, que deveriam estar apoiando com todas as forças o isolamento social, estão investindo, deliberadamente, no confronto político e no desgoverno. Em 27 de maio, no momento em que publico esse texto, segundo a OMS, dentre todos os países, o Brasil é o segundo em número de infectados no mundo, contando com 391.222 casos confirmados com coronavírus, e com 24.512 mortes oficiais. É uma verdadeira loucura, mas, com toda a catástrofe, esses líderes não demonstram a mínima preocupação com o número de mortes e nem empatia com os familiares e amigos dos mortos. Preferem seguir tocando a vida normalmente e não se sentem culpados pela eficiente contribuição que eles próprios vêm fornecendo à decomposição social e econômica. Por incrível que pareça, ainda não perdem a oportunidade de fazer observações, muitas vezes grotescas e insensíveis, sobre a atual situação. É difícil entender, mas, mesmo com atitudes atentatórias contra a população, o extremismo político anda bem fortalecido e se mostra em trajes bem vistosos. Dessa forma, o número de seguidores desses líderes parece não se alterar. A submissão desses seguidores também não tem limites, sendo somente comparável àquela dedicada pelos fiéis às seitas fundamentalistas de várias religiões. A diferença reside no fato de que esse “Deus político” aproveitador, persegue estritamente os seus próprios interesses e benefícios.

*Carlos Jared é pesquisador sênior do Instituto Butantan, especializado na biologia e história natural de anfíbios e répteis.

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