Põe a máscara ou tira a máscara? Põe a máscara!

Colaboradora do Instituto Butantan usando máscara. Foto: Davi Pina Barros.


Por Valesca Canabarro Dios - 26.04.2020

Estamos entrando no quinto mês da pandemia, contado a partir do dia 31 de dezembro, quando a notícia do coronavírus na China correu mundo. Abril começou com a mudança da orientação sobre o uso de máscaras pelo Ministério da Saúde. 

Desde o dia 2 de abril, a orientação do ministério é que as pessoas usem máscaras faciais em lugares públicos. 

O que começou controverso há um mês caminha para o consenso: vários artigos publicados por cientistas levam água para o moinho do uso de máscaras. Ciência do Coronavírus leu dois. 

A parte de dentro de dentro das máscaras retém moléculas pequenas

Os dois principais editores do Journal of Breath Research, ou Revista da Pesquisa sobre Respiração, publicaram um manuscrito online sobre se máscaras têm ou não um papel na epidemia. Como ponto de partida, testam a afirmação de que a eficiência das máscaras estaria em diminuir a possibilidade de transmissão do vírus por  pessoas infectadas mas sem sintomas. Como a especificidade da publicação é o estudo da fisiologia e da medicina do que exalamos ao respirar,  os autores fizeram uma análise sobre materiais encontrados no lado de dentro de máscaras usadas de pano, cirúrgicas ou as mais sofisticadas, usadas pelo pessoal da saúde. Conclusão: mesmo partículas relativamente pequenas, como as proteínas secretadas pelo sistema imune frente à infecção, chamadas de citocinas, ficam retidas nas máscaras. Portanto, embora ressaltem a necessidade de mais pesquisa, os dois físicos da revista sugerem que, de fato, as máscaras, mesmo as improvisadas, podem proteger quem não está infectado daqueles que estão e não sabem. 

São muitas as evidências de que máscaras contribuem para diminuir a transmissão 

Outro artigo veio a público no importante Proceedings of National Academy of Sciences dos Estados Unidos. Na edição do PNAS de 10 de abril, autores de quatro países revisaram o que já havia sido publicado até ali sobre a utilidade de usar máscaras. Para eles, a revisão não deixa dúvida: vamos usar as máscaras, porque elas ajudarão a empurrar a epidemia para o fim. E que evidências são essas? a) mesmo as mascaras nao medicas obstruem gotículas de saliva em que os virus viajam de uma pessoa para outra; b) as pessoas contagiam mais logo depois de se infectarem, quando muitos nao tem qualquer sintoma; c) já se sabe que mascaras não médicas diminuem a transmissão da gripe; d) em pequenos experimentos, as máscaras bloquearam a passagem de coronavirus; e e) em lugares e períodos em que se usou mascara no passado para conter epidemias, elas funcionaram. Além disso, se usadas em conjunto com testagem em massa, rastreamento de contatos, quarentena rigida de quem está doente, lavagem das mãos e manutençao da distancia entre pessoas, as mascaras “são uma ferramenta valiosa para reduzir a transmissão comunitária”. Quanto mais gente estiver de mascara, continuam os autores na conclusao, melhor. A recomendação do artigo publicado pela Academia Nacional de Ciências é, por fim, que todos aqueles em contato com o público só trabalhem de máscaras. 

Rememoração do debate

A discussão sobre o usar ou não máscaras faciais como forma de proteção contra a Covid-19 vem gerando debate desde o início da epidemia. A Organização Mundial de Saúde (OMS), em fevereiro deste ano, semanas antes de decretar a pandemia do novo coronavírus, publicou um vídeo onde não recomendava o uso das máscaras. Nele, Christine Francis, especialista em infecção, prevenção e controle da OMS, afirma: máscaras devem ser usadas em casos bem específicos: se é profissional da saúde ou se tem febre, tosse ou dificuldade de respirar. Em publicação mais recente, de 6 abril, a OMS mantém a recomendação – pessoas saudáveis não devem usar as máscaras. Segundo David Heymann, epidemiologista da London School of Hygiene and Tropical Medicine, e presidente do comitê de risco da OMS, lavar as mãos, manter a distância social e ficar em casa são ações mais efetivas contra o contágio.  

Por outro lado, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), agência do Departamento de Saúde dos Estados Unidos, não apenas indica o uso das máscaras faciais, como também ensina as pessoas a confeccionarem suas próprias proteções. Em documento sobre a COVID-19, o CDC apresenta estudos recentes onde demonstram que uma parcela significativa das pessoas com o novo coronavírus são assintomáticas: não têm os sintomas da doença, não sabem que estão infectadas mas podem transmitir o vírus. Mais seguro seria, portanto, partir do princípio que todos estamos infectados. E se todos podemos estar com o vírus, melhor assumirmos uma nova etiqueta respiratória e usar máscaras para circular em lugares públicos. A máscara ajuda a não espalharmos vírus por aí. 

No Brasil, o Ministério da Saúde tomou medidas parecidas com a agência norte- americana e passou, desde do dia 2 de abril, a recomendar o uso das máscaras para as pessoas que precisarem sair de casa. O site do ministério também ensina as pessoas a confeccionarem suas próprias proteções faciais. 

E como a gente deve usar as máscaras?

• Antes de colocar a máscara, lave as mãos ou use álcool-gel. 

• A máscara deve cobrir o nariz e boca e estar bem ajustada ao rosto. 

• Não toque na máscara durante o uso. Se tocar, lave as mãos ou passe álcool-gel. 

• Quando a máscara ficar úmida, é hora de trocá-la. 

• Para tirar a máscara do rosto, comece pelas tiras ou elásticos ao redor das orelhas. Não toque na parte da frente das máscaras

• Lave as mãos com água e sabão depois de retirar a máscara, ou limpe-as com álcool gel. 

• As máscaras de panos devem ser lavadas a cada uso, com sabão ou outro produto de limpeza.

• Os cuidados com as máscaras descartáveis incluem mais duas medidas:  

• Não utilize a máscara descartável mais de uma vez. 

• Descarte as máscaras nos coletores brancos que estão sendo espalhados pelos setores. O coletor tem tampa, justamente para evitar a contaminação do ambiente.

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