Uma ferramenta para ajudar no diagnóstico à distância da covid-19

Imagem: Anastasia Gepp/Pixabay

Por Adriana Matiuzo, 08.07.2020

A tosse causada pelo vírus Sars-CoV-2 tem características distintas das tosses causadas por outras doenças respiratórias como tuberculose e pneumonia. Essa constatação foi o ponto de partida para a criação de uma parceria entre o Instituto Butantan, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a empresa Intel com a finalidade de desenvolver uma ferramenta de inteligência artificial capaz de detectar a tosse por covid-19 em gravações de áudio e auxiliar no diagnóstico da doença. A vantagem da ferramenta de diagnóstico a ser criada é a possibilidade de seu uso à distância.

Para um dos pesquisadores envolvidos no projeto, Julio Croda, da Fiocruz e membro do Comitê de Contingenciamento do Novo Coronavírus no Estado de São Paulo, a ferramenta será essencial no suporte à testagem populacional em larga escala no Brasil, estratégia que permite definir o melhor momento de reduzir ou até de suspender as recomendações de isolamento social. Estudos científicos já demonstraram que 81% dos portadores de covid-19 têm sintomas leves e, justamente por isso, acabam se tornando os principais propagadores da doença.

Inteligência artificial

A pesquisa está em sua primeira etapa – na qual ocorrerá a coleta de pelo menos 900 amostras de tosse – não apenas resultantes de covid-19, mas também de outras causas. Essas amostras irão compor um banco de dados que será a base para a ferramenta de inteligência artificial (IA) ‘aprender’ a reconhecer a tosse característica da covid-19. A nova ferramenta terá 90% de sensibilidade.

No Brasil, conforme registrou a Revista Pesquisa Fapesp em abril, a pandemia causou um boom de projetos colaborativos no campo da IA em universidades, centros de pesquisa e empresas em busca de soluções para a crise.

Voluntários

O projeto agora precisa de voluntários para alimentarem o banco de dados. No endereço http://soundcov.com/, o voluntário encontrará as instruções para gravar sua tosse no celular e enviar ao banco de dados. As amostras serão classificadas em: amostras de pessoas saudáveis, amostras de pessoa com diagnóstico confirmado para covid-19 e amostras de pessoas com diagnóstico de outras doenças respiratórias.

Os participantes precisam ter mais de 18 anos e têm de assinar um termo de consentimento. Para participar, o voluntário tem de colaborar deixando trechos de sua tosse serem gravados entre 30 e 60 segundos. A quem não apresentar o sintoma naturalmente, a pesquisa pedirá que tussa de propósito, para que a gravação possa ser feita.

O cronograma prevê que as amostras serão coletadas até pelo menos março de 2021. Inicialmente, serão necessárias 900 amostras, 300 de cada tipo de classificação (por covid-19, por outras doenças respiratórias, sem nenhuma doença).

Outros aplicativos

As universidades de Cambridge (Reino Unido) e Carnegie Mellon (EUA) trabalham no desenvolvimento de dois aplicativos que também visam diagnosticar a covid-19 por meio do som da tosse. Os softwares estão em fase de testes.

O app de Cambridge, lançado no início de abril, foi aberto para testes por um navegador na internet com a condição de que o voluntário forneça dados pessoais para a identificação.

O da Carnegie foi disponibilizado antes disso e pede que os voluntários, além de gravarem sua tosse, também forneçam alguns detalhes sobre si, sem necessariamente terem que se identificar.